Ela disse que todo relacionamento começa com 50% de chances. As coisas podem pender para um lado ou outro. É possível que se siga uma estrada onde a terra seja habitável e dê frutos, ou ficar a seguir um caminho de onde nada nascerá. É possível que a paixão surja repentinamente em meio a fumaça turva do acaso e que brilhe como composição escrita ou instrumental, que toca antes os ouvidos e a pele, depois o coração. Ela acredita que o amor pode começar numa meia canção: às vezes na letra, outras na música.
Quando nossos olhos se viram pela primeira vez, os meus recitaram um trecho da letra de uma canção para os dela; os dela entoaram uma melodia para se encostar aos meus. Nossos olhos ao se encontrarem pela primeira vez, sabiam que existiria mais que 50% de chances deles se apaixonarem. Uma paixão nasce da metade do desejo do outro.
Ela gosta mais de falar e eu de ouvir. Às vezes ela se irrita por falar demais, as vezes eu me incomodo por não ter tanto a dizer. Eu quero ser um poço sem fundo para suas memórias, mas sou apenas metade olfato para seus conceitos. Eu não falo tanto porque gosto de cheirar suas lembranças.
Quando caminhamos lado a lado na rua, eu procuro ficar do lado de fora da calçada. Quero protegê-la dos carros e das poças, dos andantes e dos olhares que não tenho controle. Eu tento ser metade da calçada para seus pés. Eu sou metade tapete suspenso que ela pisa para eu sentir seus passos; para disfarçar de chão o piso que ela não sabe que existe.
Se tivermos que sair na garoa, dôo minha metade do guarda-chuva para sua cabeça. A chuva miúda me dá a sensação de fazer algo por ela. A persistência das gotas reflete minha paciência em tê-la para mim.
Ela me espera no metrô perto das cadeiras. Procuro descer no sentido oposto apenas para ter sua imagem parada: ela sentada me esperando. Desejo não chegar, desejo que ela não me veja para que a imagem não se desfaça. Desejo que nosso encontro seja metade que se contempla. Os passos que nos separam é o silêncio da falta de ar ao encontrá-la.
Às vezes a beijo com pressa e fúria, outras vezes permito a lentidão suave do ar raso de sua boca invadir a minha. Eu a beijo com ímpetos de destruição. Eu a beijo como dança lenta que percorre a noite. Eu a beijo metade loucura, metade amor em câmera lenta. Eu a beijo com vontade de não parar mais. Ela me beija como eu a beijo: com sons dilacerantes e entrega irrevogável.
Eu tento ser bom para ela e não falar em futuro, promessas de casamento ou eternidade antecipada. Meus dias são seus cabelos e nuca, sorrisos e olhares, mãos e boca, pescoço e seios, ventre e cochas, seus pés e a cama. Tudo que posso tocar instantaneamente, tudo com que posso brincar perdidamente. Meu abrigo é seu abraço, meu esconderijo sua alegria; meu conforto é tê-la por perto, meu descanso é estar com ela. Sou metade refém de sua morada.
Eu sou sempre metade do que não serei; ela será sempre o complemento do que não posso ser.
Se eu sou o pôr-do-sol, ela é a manta alaranjada que contorna as nuvens no céu. Se ela é arco-íris, eu sou os sete traços no alto esperando por ela para ser preenchido com suas cores.
Eu sou letra, ela a música. Às vezes eu sou metade melodia, outras vezes, rascunhos da composição.
Se ela é o canto, eu sou o movimento dos lábios.
Raro é o amor que se torna uma perfeita canção.
Jânio Dias