 |
O LABIRINTO DO FAUNO

Imagem: cena filme
“And if my parents are crying,
Then I'll dig a tunnel from my window to yours
Yeah, a tunnel from my window to yours”
Arcade Fire em, Neighborhood #1 (Tunnels)
Quando menino pequeno, imaginava que quando crescesse seria muitas coisas. Lembro que no meu aniversário de sete ou de oito anos, eu acordei meus pais para que me dessem feliz aniversário, e enquanto brincava de cavalinho no colo de meu pai, minha mãe fazia contas prevendo o que eu seria em determinada idade. Como havia entrado na primeira série apenas com seis anos e meio, minha mãe me ajudava na fantasia de que aos 17 faria medicina, aos 22 passaria pelo exército por causa do meu padrinho, depois estudaria para ser advogado, e se quisesse, poderia até trabalhar na televisão, pois eu também poderia ser um ator. Mas antes, eu tinha que ser um doutor. A imaginação da minha mãe queria que eu fosse alguém.
Como fui filho único até os nove anos de idade, era comum eu brincar comigo mesmo e com minha imaginação. Um dia olhei para o céu azul e de nuvens brancas como algodão doce que formavam carneirinhos ou rostos com barba no alto, e gritei para dentro de casa: "Mãe, você disse que Deus mora no céu... tô vendo Deus lá em cima desenhando..." Minha mãe não alimentava fantasias que julgava impossíveis de acontecer: "Pára com isso filho, mentir é coisa muito feia e Deus não gosta..." "É verdade...", eu insistia. No fundo, ver Deus era fazer parte de tudo que existia.
Adorava fazer de conta que eu era o Ultraman. Sabia tudo de karatê e lutava contra monstros verdes que quando estavam quase me vencendo, eu reagia velozmente e os eliminava com meus golpes e raios. Assistia ao Jonny Quest e repassava o episódio inteiro na minha cabeça; porém, eu era o Jonny. Pegava fita isolante e passava em volta dos pulsos como se fossem braceletes do Space Ghost, pois assim, eu seria ele. Prendia uma toalha grande nas costas e levantava vôo; eu era o Superman. Meus medos eram transformados em coragem e determinação quando eu virava um deles. Minha imaginação brincava de lutar contra o mal.
Um dia, meu time de futebol perdeu o campeonato estadual em casa para um time do interior, por 2 x 1. Foram inúmeras as chances de gol. Um contra-ataque perto do fim do jogo e eles fizeram o segundo gol. Dias depois ainda revendo os lances do jogo na memória, da primeira final que eu via meu time participar, triste e ainda não convencido da derrota, fechei os olhos e entrei em campo naquela partida. Faltava pouco para acabar o jogo, meu time havia perdido a bola no meio de campo, corri em direção ao homem de meio-campo do time adversário, roubei-lhe a bola sem falta, driblei um e toquei de lado para um companheiro e corri em diagonal, recebi a bola na frente, corri com a bola colada em meus pés, driblei o primeiro, o segundo, e já dentro da grande área, toquei rasteirinho na saída do goleiro. Golaço! Empatamos o jogo. Faltavam poucos segundos para os quarenta e cinco minutos restantes, quando num chute de fora da área do lateral Jorge Mendonça a bola bateu na trave esquerda e rebateu na minha direção, dominei no peito e dei um chapéu no adversário, sem deixar a bola beijar a grama, toquei nela com o lado de fora do pé direito, deixando o outro defensor no chão, e chutei cruzado fora do alcance das mãos do goleiro, no alto, entre a forquilha. Golaço! O placar agora era 3 x 2 ao nosso favor, e éramos campeões. Depois de tantos anos na fila, eu que acabara de me apaixonar por aquele time, o via campeão. Minha alma era campeã. Minha imaginação havia salvado meu amor iniciante pelo futebol.
Já menino grande, por mais que eu tentasse, por mais que eu me concentrasse, minha imaginação há muito não me socorria na vida real. A infância que acabou prematura, o trabalho que começou cedo, os pais que se desfizeram no primeiro tempo da infância; o time do coração que demorou para ser campeão, a menina mais bonita que sumiu da minha vida, os amigos que ficaram pelo caminho; os irmãos mais novos para cuidar, o poeta que se foi cedo demais, o dinheiro ralo para estudar e sobreviver; o trabalho sem graça, os shows que não foram vividos, a luta diária pelo sonho e a melodia. Minha imaginação me abandonou para ser minha amiga apenas agora, já garoto.
Um garoto que não cresceu muito, que não virou ninguém em especial como imaginado, que nunca foi além em nada que dele se esperasse, mas que não cansa da tentativa de ainda ser salvo e virar algo querido no mundo em que o esperam. Um garoto que procura celebrar os amigos mais queridos sempre que pode, sempre que assim o sente. Que vive cada novo amor com a mesma impossibilidade e imprevisibilidade que a vida sempre foi: um sonho delirante sem o controle das mãos na imaginação.
Eu vivo a vida longe da realidade hoje, para poder amá-la em segurança amanhã.
Jânio Dias
Escrito por Jânio Dias às 21h39
[]
|
 |
 |