Era a terceira semana de dezembro de 1994, e eu queria muito ir àquela festa. Além da primeira brincadeira de amigo-secreto com aquela importante turma de novos amigos que se formava, haveria também a comemoração do aniversário de uma pessoa que todos gostavam.
Eu precisava de dois presentes para aquela noite, mais o dinheiro da condução para chegar ao local da festa. O primeiro presente, do amigo-secreto, era fundamental consegui-lo. Ir à festa sem ele era impensável. Era mais fácil não ir. Mas eu precisava. Aquelas pessoas eram minha maior motivação existencial naqueles dias. Não estar entre eles naquela noite seria como não ir ao baile da escola quando a menina mais bonita espera por você.
O primeiro presente resolvi com a compra de um livro. O segundo teria que improvisar. O dinheiro que ainda restava quase não era suficiente para a condução. Mas para essa situação já estava acostumado a me virar. Pagaria o ônibus com passe escolar, e na estação de trem andaria cerca de um quilômetro até uma parte da linha onde era possível pular o muro. Mas ainda faltava resolver a questão do presente de aniversário.
Passei parte daquela manhã pensando no que fazer. Um porta-retrato com foto, talvez? Mas não havia uma foto para um porta retrato. Uma camiseta da nossa banda preferida? Mas não havia como comprar a camiseta. Um livro, um vinil, uma garrafa de cachaça do alambique? Não havia como. Teria que ser algo simples, que não dependesse de dinheiro, e que representasse algo aos sentidos do olhar.
Pensei então em flores. A pessoa em questão provavelmente adoraria a idéia, imaginei. Porém, não poderia ser as da floricultura, por causa da maldita falta de dinheiro. Teriam que ser de algum jardim vivo, com terra nas raízes, com cheiro de esperança recente.
Comecei a andar pelo bairro de onde morava a procura de um quintal com jardim. Eu passava em frente às casas e ficava olhando para ver se tinham um canteirozinho para que eu pudesse colhê-las. Em alguns quintais haviam pequenas hortas, com pés de alface e couve, capim-santo e erva-doce; mas não flores.
Até que, uma delas, tinha junto a parede da casa vizinha algumas margaridas plantadas. Fiquei contente e queria logo entrar. Era uma casinha simples de quintal grande e uma cerquinha na frente feita de tábua. Olhei para dentro do quintal e não parecia haver ninguém na casa. Bati palmas e nenhuma resposta. Encostei a mão na porta da cerquinha e ela abriu sozinha. Sem pensar muito entrei e comecei a arrancar com cuidado da terra preta e fofa as margaridas. Segurava por baixo e fazia uma pequena pressão para cima, até que sentisse as raízes rompendo o solo macio. Logo em seguida ouvi uma voz gritante que vinha de dentro da casa: - "O que você está fazendo aí moleque?".
Assustei-me com o grito e sai correndo rua abaixo. Coração na boca e flores ainda vivas contra o peito. Corria como se houvesse o risco de ser preso e punido. Corria como quem corre para fugir do que não se conhece, do que não se espera, do que não se justifica. Corria para salvar as vidas das flores que estavam em minhas mãos.
Eu havia cometido um delito. Um roubo na natureza e em propriedade privada. Um gesto que tentava justificar os meios pela importância da amizade.
Quando cheguei na festa e o anfitrião e também aniversariante me recebeu, fui logo passando para suas mãos o pacote amassado em celofane vermelho com as margaridas que ainda tinham em seu caule as marcas recentes de sua retirada da terra. Sem que eu lhe tivesse contado ainda sua origem, ele parecia surpreso e feliz com o gesto: - "Que coisa mais linda! Eu não podia receber presente mais significativo na noite de hoje..."
E em seguida me cobrou: - "Por que você demorou tanto para chegar? Estávamos quase achando que você não viria mais..."
Respondi com a satisfação da alma que entende que seu pequeno gesto foi recebido como grande: - "Demorei porque... porque estava passeando por jardins, colhendo flores por aí..."
Jânio Dias