O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS

Imagem: Sang-mim Kim
“One love we get to share it
it leaves you baby if you don’t care for it
Johnny Cash, em One
Eu só tinha 11 anos, e tudo que queria era completar meu álbum de figurinhas da seleção brasileira de futebol. Eu nem lembro mais o nome do jogador que faltava, mas sei que ele não foi para aquela copa. Descobri mais tarde que o álbum era impresso muito antes do início do campeonato, e a lista oficial dos jogadores saía uns quarenta dias antes. Mas lembro bem do álbum, com aquele espaço em branco que parecia deixá-lo triste, com aquele quadrinho solitário que o deixava incompleto.
Eu achava que se eu juntasse muitas moedas e se meu pai ajudasse compraria muitos pacotes de figurinhas e tornaria o álbum feliz. Um dia compramos um monte. Abria cada envelope com a pressa e urgência da descoberta que se fazia necessária. Eram dezenas de pacotinhos rasgados e espalhados pelo chão da sala. Dezenas de figurinhas repetidas que não tinham mais quadrinhos pra elas preencherem. Mas nenhuma era a que faltava. Colei a tristeza do álbum em mim. Mas meu pai não deixou que ficasse desanimado por muito tempo. Explicou-me que achava que como aquele jogador não tinha ido pra copa, a gráfica havia sido rápida o suficiente para tirá-lo de todos os envelopes. Em seguida me levou para jogar bola. A alegria do futebol tornava as tardes com sol mais importantes.
Aquele ano foi o último que me lembro como criança pequena. Tive que deixar a infância de lado para encontrá-la mais tarde. Tive que virar menino-moço com escola pela manhã, e menino-homem com trabalho à tarde que ia até o início da noite. Era preciso deixar de vagabundear para colocar dinheiro em casa. Meus pais se separaram enquanto eu empinava pipa no céu. Fui obrigado a aprender servir um copo de pinga enquanto outro cliente pedia para que pesasse um quilo de feijão. Era uma mercearia do tipo secos e molhados, um misto de bar com mini-mercado. Um trabalho disputado, tão disputado que fui testado com um amigo de infância. Acho que ele deu sorte de não viver aquilo, pôde aproveitar um pouco mais a lagoinha e a Sessão da Tarde. Ele achava o contrário: além da pisa por não ter ficado na mercearia, tinha que acompanhar o pai que trabalhava como pedreiro.
Por trabalhar o que era considerado “apenas meio-período”, não tinha folga. Quando saía mais cedo da escola, ia direto pro trabalho. Eu era considerado privilegiado pelos outros dois funcionários que trabalhavam em período integral, logo me preocupava em não perder o emprego. Um dia fui liberado pela dona para terminar um trabalho da escola. Naquele dia jurei para mim mesmo que não colocaria os pés na mercearia. Fiz o trabalho escolar o mais rápido que pude para fazer outras coisas depois. Quando terminei fui atrás do meu antigo amigo, seu irmão mais novo disse que ele estava no trabalho. Pensei em outros dois amigos e lembrei que trabalhavam também. E o pior: estudavam à noite. Peguei minha antiga bola e fui sozinho para a quadra da escola. Fiquei lá solitário, chutando a bola contra a parede, porque o gol não tinha rede.
Naquele fim de tarde lembrei da figurinha do álbum que ficou faltando. Lembrei como havia me preocupado em tornar o álbum completo, como o achava infeliz sem aquele rosto. Aquele jogador estava sim em algum envelope que eu não havia encontrado. O futebol era alegre porque tinha um monte de gente. A escola era mais legal quando não tinha aula porque todo mundo ia para a quadra. O bar vivia cheio de gente porque depois da quadra e do futebol, era lá onde as pessoas se encontravam. A vida tinha mais importância quando as pessoas estavam juntas. As figurinhas só podiam ser felizes juntas.
Mas meus pais se separaram enquanto eu juntava as bolinhas de gude no quintal.
Descobri cedo que minha vida era um álbum; e as pessoas que amava, as figurinhas.
Jânio Dias
Escrito por Jânio Dias às 23h53
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