" – Lembrei de uma coisa", disse ela girando o pescoço para em seguida ir em direção à sala e tirar de dentro da bolsa algo embrulhado em papel de presente, e entregou a ele. " – É uma lembrança pra você, algo que tenho duas sensações: 1) já lhe dei antes; 2) eu havia te emprestado... Como não tenho certeza de nenhuma das duas situações, resolvi comprar pra te dar de verdade." Ele pegou contente o embrulho e percebeu logo que se tratava de um livro. Rasgou com pressa o papel e encontrou Alta Fidelidade, um livro do inglês Nick Hornby. Ele ficou felicíssimo com o presente. Já havia lido e visto o filme, sabia que se tratava de uma obra prima da cultura pop. Ficou tão feliz que lhe agradeceu com um beijo certeiro nos lábios ainda com batom. Ambos pareceram se assustar, mas fecharam os olhos, entrelaçaram-se os braços e beijaram-se distraidamente.
Quando pareciam refeitos da comemoração afetuosa, ele perguntou se ela não iria fazer uma dedicatória para ele. Ela olhou em direção ao livro como que já tivesse tido vontade e pensado em ter escrito algo carinhoso na primeira página, mas lhe disse que era algo que precisaria de algum tempo e que não conseguiria fazer com ele olhando. Ele demonstrou compreendê-la e lhe disse para ficar à vontade para fazê-lo quando quisesse.
Perguntou se ela queria vinho ou uma caipirinha de saquê. Ele já sabia a resposta e a convidou para ir a pequena cozinha. Havia uma mesinha com uns três ou quatro tipos de frios, pão, molhos, azeitona... e um punhado de morangos ao lado de uma garrafa de saquê. Ela o ajudou a preparar a bebida e foram para a sala. Segurando um copo nas mãos, ela ficou olhando na pequena estante os dvd´s ali disponíveis. Olhou demoradamente para a caixinha de Closer – Perto Demais, mas acabou colocando no aparelho um show do Morrissey. Eles se sentaram e começaram a conversar como o Morrissey ainda é incrível, e como ele vem até a Argentina mas não passa por aqui. Até que seus olhos se encontraram outra vez com reflexos de desejos mútuos.
Ele a beijou ardentemente como que seu corpo começasse a se incendiar, até que ela colocou a mão em seu peito pedindo para que parasse. Ele obedeceu imediatamente. Ela começou a expor os mesmos motivos de sempre, os mesmos motivos que os deveriam impedir de ser algo maior que amigos, como o fato de nunca estarem descompromissados para tentarem algo real juntos.
Ele se sentia cansado daquela história, apesar de acreditar como ela na teoria de que a magia que existia entre os dois era fruto da pureza compartilhada e alimentada por ambos. Que tudo era tão belo quando estavam juntos exatamente porque nunca haviam convivido realmente juntos. Acreditavam que a convivência diária estragava as pessoas, por isso da existência de tantos casamentos desfeitos. Sempre tinham a impressão de que poderiam viver a mais bela das histórias, mas no fundo aquilo não era real, era apenas curiosidade que alimentava a vontade de ficarem juntos.
Ele a ouviu pacientemente, mas não queria mais saber de tantas desculpas, e tentou justificar-se da forma mais melodiosa possível: " – Sabe aquela canção que gravei pra você naquele cd, que encerrava aquele disco?" Ela balançou a cabeça e os olhos afirmativamente, e ele continuou: " – Então, ela dizia: "Deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga / Já não vejo motivos para um amor de tantas rugas não ter o seu lugar". É nisso que eu acredito hoje. Mas respeito o que você sente e acredita, e não seria capaz de fazer nada que pudesse magoá-la, que pudesse ameaçar tudo de belo e íntegro que construímos até hoje".
Ela o olhou com um brilho apagado nos olhos. Triste, como quem dá adeus a um amigo de infância porque foi morar longe. Como quem se despede do jogo aos 42 minutos do segundo tempo. Em seguida sugeriu: " – Vamos ver um filme?"
O tempo foi passando e ela foi ficando, como quem fica para ter certeza que a derrota ainda não aconteceu.
Com a cabeça apoiada no ombro dele adormeceu. Ele a ajeitou ainda no sofá, tirou seu tênis, cobriu-a provisoriamente. Preparou a própria cama e colocou um colchonete ao lado para que deitasse aos pés dela.
Logo pela manhã, quando o sol do horário de verão atravessava a janela, ela já estava de pé e arrumada para ir embora. Ele olhou para a cômoda ao lado da cama e viu que a toalha e camiseta que pertenciam a ela não estavam mais lá. Foi até a sala e a viu mexendo no celular. Convidou-a para tomar café antes de sair. Ela foi até ele e o beijou. Passou a mão em seu rosto como quem deseja guardar uma última imagem na memória. Virou-se, abriu a porta, chamou o elevador, e foi embora sem olhar para o corredor.
Ele voltou para o quarto e viu o livro que havia ganhado sobre a penteadeira. Pegou o presente, sentou na beirada da cama e sobre o edredom desarrumado que ela havia usado, abriu na primeira página e encontrou escrito a lápis:
"As únicas certezas desse amor são de que ele é platônico, e para sempre, amor."
Jânio Dias