
Arquivo pessoal, nov/05.
Ela não gosta de sandálias de salto e não se importa com sapatos. Fica ainda mais linda de All Star branco, mas prefere chinelos de dedo. Mesmo quando tem a oportunidade de passear pelo parque da cidade, prefere fazê-lo descalça. Fica irresistivelmente atraente de jeans, mas prefere um vestido de nuances hippies.
Ela já nasceu gata.
Faz charme ao amarrar o cabelo dando voltas nele enquanto prende entre os dentes a presilha. Se sair à noite, mesmo que seja para tomar sorvete ou comer pizza, pega no estojo de maquiagem. Quando está comigo, quase sempre está sem batom; sempre diz que a culpa é sempre minha. Gosta de usar brincos que sejam perigosos para eu engolir.
Ela é uma amante homicida.
Gosta muito mais de MPB, mas garante que o show do White Stripes está entre os melhores de sua vida. Tem no Arcade Fire o momento mais sublime de sua existência musical, mas é em Los Hermanos que encontra o caminho mais curto para chegar ao deus Chico Buarque.
Ela comunga com deuses.
É tão jovem que nunca havia assistido De Volta Para o Futuro. É tão inteligente que me explicou um filme do Godard. É tão sensível que chorou quando Celine cantou para Jesse em Antes do Pôr do Sol. É tão dócil e altiva quanto uma cena de Tim Burton. É tão esperta que me beijou antes dos créditos finais.
Ela tem a beleza de um filme em branco e preto.
Viaja tanto pelos mundos intermináveis da literatura, que sua mãe já a ameaçou de despejo por ausência do lar. Quando trabalhava numa livraria, comprou tanto livro que foi obrigada a dividir o quarto com a irmã. Guimarães Rosa acha que ela devia dormir sob uma cama de livros, assim deitaria sobre ele toda noite.
Ela é musa inspiradora.
Quando me conheceu, quase não ouvi sua voz. Não deixou que eu lhe desse uma carona, recusou o convite para um inofensivo suco, nem se preocupou em ficar sabendo o meu nome. Mas educadamente sugeriu que lhe deixasse o e-mail. Detalhe: apenas o meu, quase fiquei sem o dela. Esperei que me escrevesse, como a criança que espera o presente na noite de natal; mas claro, não escreveu. Fui obrigado a fazê-lo por pura pressão do coração.
Ela atentou contra os meus sentidos.
Ela acha que começamos a namorar na noite que nos beijamos, eu acho que foi no dia em que fui à casa dela. Ela acredita no Marcelo Camelo, eu no Caetano Veloso. Ela quer ir para Buenos Aires, eu quero passear na Paraíba. Ela quer morar na zona sul da cidade, eu quero a zona norte. Ela adoraria viver entre os bares da Vila Madalena, eu perto do restaurante Vale Verde. Ela quer estar em todo show do Zé Miguel Wisnik, eu da Plebe Rude. Ela quer trabalhar com tradução, eu quero escrever. Ela me pediu um depoimento no Orkut, eu lhe dei um scrap de três palavras. Ela quer dormir no meu colo enquanto vejo o jogo na tevê, eu quero ir ao estádio. Ela quer manhãs de sol no parque, eu quero manhãs de neblina para permanecer na cama. Ela quer um amor com forma de cidade grande, eu quero a sorte de um amor tranqüilo.
Ela é maior que meu amor.
Ela é céu estrelado, eu sou a rua vazia. Ela é carnaval e sonhos, eu sou o bloco esquecido. Ela é música rica em melodia, eu sou ritmo de intervalos diferentes. Ela é obra de Drummond e Bandeira, eu sou rascunhos de desejos. Ela é filme francês, eu nasci em Madureira. Ela é um vinho aveludado, eu sou aquele que perdeu a cor. Ela é um pássaro livre no céu, eu sou a pipa que foi cortada. Ela ilumina a noite escura, eu faço parte da noite. Ela é poesia, eu sou palavras jogadas ao vento que ocupam espaços em branco.
Ela acalma, eu grito. Ela insiste, eu penso. Ela aclama, eu sucumbo. Ela segue em frente, eu admiro.
Ela é uma dádiva de rara formosura.
E eu sou um criminoso. Roubei toda essa beleza para mim.
Jânio Dias