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POR QUE NÃO VOTO LULA

“Seja alguém, vote em ninguém Seja alguém, vote em ninguém Seja alguém, vote em ninguém”
Plebe Rude em, Voto em Branco , canção de 1982.
"Você está sentado no bar, num happy hour tomando um choppinho no fim de tarde, quando entra um cara cantando ‘Seja alguém / Vote em ninguém’. Você olha pra ele, não presta atenção, acha que é um louco. Agora, duas pessoas. Duas pessoas entrando no mesmo bar cantando ‘Seja alguém / Vote em ninguém’. Vão achar que são dois palhaços, ainda não vão prestar atenção. Mas agora são dez pessoas em volta do bar marchando e cantando ‘Seja alguém / Vote em ninguém’. As pessoas vão colocar os seus chopps na mesa e vão prestar atenção. Elas vão achar que é uma gang. Agora temos 100 pessoas andando pela rua e cantando ‘Seja alguém / Vote em ninguém’ atraindo mais e mais pessoas. As pessoas vão ver que é um movimento, elas vão aderir. E é isso mesmo. Elas querem mandar uma mensagem. E a mensagem é essa: Estamos de saco cheio de não sermos representados. Estamos de saco cheio de só sermos lembrados de quatro em quatro anos quando vocês querem nossos votos. Vocês não nos representam, por isso vamos ser alguém e votar em ninguém".
Plebe Rude em, Voto em Branco, do cd “R ao Contrário” , encartado na revista Outra Coisa , 16º edição, setembro 2006.
Há exatos quatro anos, fim de setembro de 2002, eu havia enviado por e-mail um texto do Frei Betto intitulado Por Que Voto Lula para uma lista seleta de amigos. Um deles, exercendo seu direito natural de manifestação contrária, criticou duramente os argumentos do texto, o candidato e seus principais companheiros.
Eu, que até aquelas últimas horas acreditava e sonhava com um legítimo representante do povo no poder, repliquei as críticas da seguinte forma:
Escrito por Jânio Dias às 14h04
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Querido amigo, parabéns pela iniciativa de colocar em prática uma das primícias básicas da democracia: o debate político. Debate esse, só existente hoje, porque pessoas como um tal de Luis Inácio da Silva, ou um tal de José Dirceu (que depois teve de trocar de nome e esconder seu passado em conseqüência dessa luta), tiveram a coragem de se expor e organizar movimentos e pessoas para que isso acontecesse. Homens com vasto lastro político.
Amigo, lastro político não significa ser prefeito ou governador de algum lugar. Lastro político é dedicar-se corpo e alma, durante uma vida inteira, de forma ética e transparente, a ideais e sonhos de uma vida menos injusta. É ser extremista a ponto de treinar luta armada, a perceber que o caminho mais digno e humano é o de transformar as pessoas através das idéias. É ser um mero operário numa fábrica de auto peças em plena ditadura militar, e organizar greves contestando e reivindicando sua situação no espaço e no tempo. Amigo, lastro político é - no mínimo – ter atitude política em prol da verdade.
Para o bem do nosso fragilizado país, Lula insiste em ser presidente. Eu já lhe falei isso uma vez: Lula é um daqueles casos raros existentes no mundo de liderança natural. E não existe curso em faculdade nenhuma do mundo que ensine como ser um legítimo líder. Ser presidente de um país, não é como ser um contador ou um analista de sistemas de uma empresa, onde se estuda quatro ou cinco anos de faculdade, e depois ainda fica se especializando. É um dom que já nasce com a pessoa. E não há mesmo a necessidade de experiência administrativa do nível que você sugere. Tenhamos como exemplo Nelson Mandela. Ele ficou simplesmente 27 anos preso, por lutar contra um sistema que ele não admitia como cidadão do seu país e do mundo. Sanções internacionais pressionaram o presidente branco ilegítimo Frederick Deklerk a soltá-lo. E o que aconteceu? Primeiro ele lutou por eleições livres e depois foi eleito presidente. Da cadeia para a presidência. Foram 27 anos presos, sem direito a nenhum cargo administrativo na prisão!
Quércia é uma flor comparado a ACM. Levando em consideração que não se vê mais Generais de fardas dando palpites sobre política, ACM é de tudo, a pior coisa que nos sobrou da era Militar: truculência, arrogância, desrespeito dos direitos constitucionais, o poder acima de qualquer coisa. O poder como forma de sobrevivência. A sobrevivência dos interesses únicos e exclusivos dele. Todo poderoso criador do céu e da Bahia.
Não fico nenhum pouco surpreso com a sua visão da administração Marta. É a típica visão de quem cresceu admirado entre viadutos e túneis ultrafaturados. Enquanto que na periferia, a miséria e descaso só acumulavam. Você viu em Cidade de Deus como o bairro criado para abrigar pessoas sem teto em função das enchentes no Rio na década de 70 se transformou em favela e antro da violência e do tráfico de drogas? Não?!? Foi assim: as pessoas desabrigadas eram levadas para abrigos criados em lugares muito afastados da região central do Rio, longe do cartão postal da cidade, sem luz, saneamento, condução, e lá esquecidas. Sempre foi esse o tratamento dado aos pobres pela ditadura militar e pelo senhor das riquezas e do desenvolvimento Paulo Maluf. Não é de se admirar sua visão do governo Marta - quem nunca esteve na miséria não precisa e nem quer saber como é. Aliás, por que priorizar essa gente?
O governo Fernando Henrique termina seu mandato de 8 anos (lembre-se: foram 8 anos) de forma pífia. Foram 8 anos de estagnação econômica, 8 anos sem falar em distribuição de renda, 8 anos de lucros indecentes aos bancos, 8 anos de privatizações de dinheiro revertido para pagar juros da dívida externa, 8 anos multiplicando a dívida externa, 8 anos cultivando a dependência do país ao capital estrangeiro, 8 anos deixando de lado a reforma tributária, 8 anos submetendo o país a sufocantes metas de desempenho orçamentário, 8 anos entregando os fundos de administração pública a ACM´s da vida, 8 anos enterrando escândalos vivos.
É meu amigo, como explicar alguém que um dia escreveu dezenas de livros sobre o fim da miséria, respeitado mundialmente como estadista de país de primeiro mundo, e quando tem a oportunidade de começar algo, não move uma palha? "Despreparo do País para o mercado globalizado?"
Ainda bem que existem cidadãos como o senhor José Dirceu e Luis Inácio Lula da Silva. Caso contrário, essa troca de idéias não existiria.
Jânio
24/09/2002
Escrito por Jânio Dias às 14h04
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Olhando hoje, parece que houve um exagero no tom. Mas acho que não. Era exatamente nisso que eu acreditava. E era um momento quente, de real campanha política por todos os lados. Respirava-se a eleição. Bebiam-se debates. Comiam-se as biografias. Não era como hoje: morno, sem gerar interesse, sem despertar tesão. Era excitante o tema, estimulante as diferenças, desafiadora a vitória. Nobre era a luta. O histórico de ética e transparência diferenciava. A transformação das classes ensaiava um embrião. Minha verdade empolgava. Produzia esperança. Agora não. Falo pouco, olho pra baixo, desvio o assunto; encurto a dor e engano o sofrimento. Engulo seco a desilusão.
Mas mesmo tendo eles manchado ou destruído suas invejáveis biografias, suas contribuições para a história da nação continuarão intocáveis, até aquele instante. Esse país seria ainda pior sem tê-los tido. E até aquele momento, acho que o que escrevi refletia a verdade da época. Mas quatro anos fazem diferença. E aquela verdade foi substituída por outra: eles eram diferentes sendo iguais a tudo aquilo contra o que sempre lutaram.
Mesmo assim, não considero que eu estava errado. Fui certo enquanto acreditei. Precioso enquanto batalhei o bem, enquanto sonhei que o melhor era possível. Eu me moldei naqueles pensamentos e a esperança esteve comigo. Eu vivi o doce e o suave da fé.
Por isso, e pelo que já expus aqui em outro momento , eu não voto Lula.
Jânio Dias
Escrito por Jânio Dias às 14h04
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