 |
COISAS DO INCONSCIENTE COLETIVO

Vias, de Xul Solar.
18/09/2006 18h31
De: Jânio
Para: [Lista Amigos]
CC:
Assunto: Ritmo... ritmo de festa...
Olá!
Alguém aí quer uma bolacha de maizena?
Eu tive um sonho estranho. Todos nós, ou quase todos nós (sabe como é sonho, né?!), estávamos em uma casa cheia de cômodos e com muitas cadeiras. Daí passei a ter a sensação que todos estávamos em uma rodoviária e tinha um barulho de vozes misturadas que era bem grande. Acho que tinha até aquela moça do alto falante lá. Até fiquei procurando de onde vinha o som porque tava achando aquela voz muito sensual. Mas de repente o Betão me cutucou as costas e quando virei ele tava parecido com um rei ou príncipe da Arábia. Sabe aqueles caras cheios de pano e aquelas tocas engraçadas e muitas jóias e mulheres de lado? Pois é, duas das meninas eram a Elaine e a Nivania, tavam como duas odaliscas. Sabem como é: magras, lindas e quase sem roupas. Quer dizer, quase é quase um exagero. Achei bem estranho porque o Betão gosta que preencham a cama. Aí perguntei prá ele, "a Renata tá por aqui?" Ele riu maliciosamente e disse que ela tava "preparando umas coisas". Não entendi direito. Também não fiz muita questão de entender, era sonho, né? Aí mais adiante eu vi as Vanessas, elas tavam todas de preto e com umas roupas do tipo "dominadoras", se é que vocês me entendem! Vi a Vivi também, mas não tinha nada de perverso. Ela tava sentadinha numa cadeira segurando um livro caixa e uma calculadora financeira. Também vi o Volges e ele tava vendo e-mail's. Cheguei perto e eram fotos. Perguntei que fotos eram aquelas e ele disse: "São amadoras. Me amarro em amadoras. Olha essa aqui de costas pro fogão? Show, né?!!" Prefiro aquelas da Sex mesmo, eu disse. Vi a Margarete e ela tava muito formal. Parecia carimbar e assinar folhas. Ela tava atrás de uma mesa. Na mesa tinha uma plaquinha: Dra. Margarete - promotoria. Fiquei meio com medo. De um outro lado eu vi a Mariliza, parecia que jogava tinta nas paredes e brincava nelas deslizando os dedos. Cheguei perto e disse: "que bonito". Ela: "experimenta, vê que gosto tem". Passei o dedo e levei à boca. Era meio salgado e meio doce. Não sei por que lembrei de Daniel na Cova dos Leões. E não sei por que aquilo me pareceu excitante. Vi o Marcelão e ele tava muito bravo ao telefone, mas ao mesmo tempo ele tava muito engraçado. Tava parecendo o Rob dos Menudos. Eu ri na frente dele. E ele: "Caralho, você tá parecendo o Paulo Ricardo". Eu olhei prá mim e procurei um espelho. É, tava bonitão. Cabelos longos, lisos, calça de couro, botas italianas e barba por fazer. Gostei de mim! Mas aí tomei um susto. O Paulinho tava todo negão, parecendo um cantor de funk dos anos 70, com um cabelão black-power que não via água há meses. Perguntei da Tati e ele disse que ela tava escolhendo um sapato. Comecei a andar mais pela rodoviária e vi a Tati toda luminosa, cheia de lantejoulas, usando uma sainha muuiiitttooo sensual. Vi a Eneida e ela tava cuidando de umas crianças. Devia tá falando de algum apóstolo, acho. E depois vi o Alexandre, parecia contar histórias para umas pessoas mais jovens. A maioria tinha uns olhos arregalados, não sei se era por causa do jeito que as pernas dele tavam cruzadas ou se era pelo teor da história em si. E ele tava mais estranho que o normal, com uma camisa branca aberta no peito e um medalhão à mostra no pescoço. Tava parecendo o Erasmo Carlos, mora? E a Bruna tava me procurando com um pacote de bolachas de maizena nas mãos.
Seria essa alucinação toda efeitos da expectativa da festa do Alexandre?
Ou será que tenho escrito demais no blog e isso provocou essas imagens bizarras com cada um?
Hummm... saudades de cada um?
Bem, na verdade, o que me preocupa e interessa mesmo é: como faço prá que da próxima vez eu veja as outras meninas do jeito que vi a Elaine e a Nivania???
Beijos,
Jânio
Escrito por Jânio Dias às 18h33
[]
A CANETA E O GUARDANAPO

Foto by: A.K.
Procuro um cardeninho de anotações dentro da mochila e não acho. Encontro uma conta de celular. Parece servir. Então procuro uma caneta e também não acho. Tem Ipod, aspirina, chave do carro, camisinha e até escova de cabelo dentro da mochila; mas não tem caneta nem o pequeno caderno que serveria para anotar meus pensamentos desencontrados e cambaleantes.
Precisava deles naquele instante em que terminava de subir as escadas trocando de metrô, logo após abandoná-la para que seguisse sozinha para sua casa. Precisava urgentemente anotar o que tinha visto. Seu cabelo curtíssimo, cheio de charme e de presilhas, o par de brincos pequenos e brilhantes em forma de coração, a camiseta branca sob a blusinha fina e verde, as unhas grandes por fazer, os lábios finos e sem batom. Sua vontade de fumar e seu cheiro de cigarro. Seu andar calmo e ligeiramente embriagado. Seu olhar calado e apressado.
Anotar o que tinha dito sobre se apaixonar todo dia, desde os quatro anos de idade, desde o professor de judô, passando pelo pai do namorado até o charme "tucanista" de FHC. Rascunhar algo sobre seu desejo ou paranóia de um dia escrever um livro sobre o metrô. Capítulos específicos sobre as pessoas de óculos, vestidas de azul ou de sobretudo. Sobre aqueles que lêem O Código Da Vinci ou Zibbia Gasparetto. Sua teoria de que o metrô reflete moda e cultura. Desde os fones de ouvido brancos nas orelhas das pessoas aos livros que trazem inscritos na capa: "pelo espírito de...". Precisava anotar o que tinha dito sobre sua religião e a crença de não tomar remédios, até o que havia dito sobre sua intuição em saber identificar imediatamente quem precisa de ajuda.
Queria anotar em poucas palavras como nosso reencontro foi rápido. Como sempre falamos mais dela e menos dos outros. Como me ouço tão pouco. Como é charmoso vê-la esvaziar o copo antes de mim. Que queria ouvi-la perguntar sobre aquele texto que não compreendeu. Anotar que quando boceja vejo o quanto é impaciente, sem demonstrar falta de interesse. Que nossas opiniões divergentes geram um fuck off tão natural quanto um caroço de azeitona colocado de lado no prato. Que queria lhe mostrar o já não tão novo Morrissey que está no Ipod, ou como Cardigans é parecido com Los Hermanos, apesar de ter dito. Dizer que, até outro dia, eu me apaixonava todo dia. Que nunca deveria ter recusado o convite para conhecer seu apartamento. Que quando nos abraçamos parece que uma águia me envolve com asas enormes e não quero ser mais solto. Que quando nos afastamos sempre parece que nunca mais nos veremos.
Precisava de uma caneta e uma folha de papel para rabiscar aquele momento como quem suja um guardanapo com traços de um menino e uma menina juntos. Como a criança que desenha no braço um relógio. Como quem escreve na parede do quarto o nome de sua banda. Como quem anota bolinhas e estrelas numa reunião enquanto pensa em alguém. Como quem risca a calçada antes da chuva. Como quem toma nota na palma da mão para não esquecer o dia seguinte - e depois toma banho. Como quem grafita o muro com preto, vermelho e amarelo em uma rua que ninguém passa. Como quem escreve na última página do caderno o nome da menina da frente. Como quem marca o corpo com tatuagem de chiclete.
Queria escrever para que soubesse que é muito bom quando está por perto. E como é raro uma boa companhia para um chope gelado numa noite fria de inverno.
Jânio Dias
Escrito por Jânio Dias às 12h21
[]
|
 |
 |