BUENOS DÍAS, POETA

Still life of shoes, 1886, de Van Gogh
Nas últimas duas semanas fui agraciado com dois e-mails muito especiais. O primeiro direcionado à minha pessoa, muito gentil e carinhoso, sobre a leitura do texto aqui publicado em 24 de agosto, Tijolos para um Sonho. O segundo, uma reflexão ritmada sobre o tempo, pequenas coisas, o aqui e o agora. Ambos da mesma pessoa, ambos em forma de versos. Logo, ambos do mesmo poeta. De modo que o formato e tratamento de e-mail dado à mensagem recebida passa a ter outra forma: poema. Eu recebi dois poemas via e-mail.
O detalhe curioso é que o Amigo que os escreveu não tem o hábito de torná-los público. Gosta da segurança da privacidade de suas emoções. Já o publiquei aqui anteriormente, mas fiquei com a impressão de que não havia gostado da atitude, pois nunca mais os havia enviado (apesar de tê-lo pedido naquele momento). Para ter segurança de que poderia publicá-los (ainda quando do recebimento do primeiro poema), enviei-lhe a seguinte mensagem de agradecimento e de ameaça:
31/08/06 11h04
De: Jânio
Para: Paulo Giovani
CC: [Lista Amigos]
Assunto: Re: Era uma casa muito engraçada
Como eu sempre digo: tá aí um poeta que nunca assume a sua arte e seu dom. Que tem domínio do espaço, do ritmo e da emoção necessária para se contar em versos o que os olhos sentem.
Esse lado do amigo Paulo sempre me lembra a história de um outro Paulo.
Um dia assistindo à uma apresentação musical de um professor da Bruna, José Miguel Wisnik , ele fez questão de falar de um poeta que ele admirava, um amigo e mestre também, que muitos admiravam, mas que nunca tinha tido coragem de publicar seus versos. E contrariando a vontade do amigo, ele dizia naquela oportunidade que só traindo a confiança do velho amigo para que seu talento viesse um pouquinho à tona, como naquele momento onde ele aproveitava aquela platéia reunida e apresentava um de seus poemas.
O nome do poeta em questão é Paulo Neves, que só agora aos 59 anos de idade reuniu parte de sua obra em livro, VIAGEM, ESPERA .
Amigo Paulo, como não poderia deixar de ser diferente, gostaria de publicá-lo no meu blog posteriormente.
Caso contrário, terei que trair sua confiança também.
Muito obrigado pela homenagem. Aliás, mais uma.
Beijos,
Jânio
Ele respondeu, ainda sobre o e-mail acima: "Claro que pode colocá-lo no Blog, é uma extensão do seu texto, é uma continuação...". (Transcrevo apenas a parte onde ele concorda, pois não conversamos sobre publicar os e-mails na íntegra).
Mas retornando, eu recebi via e-mail dois poemas de um grande Amigo.
Mas não dois poemas quaisquer. Talvez sejam ansiosos, escritos as pressas, à véspera da sede. Mas eles superam qualquer intenção precoce de acontecer. Eles existem antes do saber, pois foram concebidos entre o desejo e o sentir. É parte da revelação intrínseca do poeta.
É mais que isso. É mais que o ontem. É a presença do hoje e do amanhã. Eles representam em suas estruturas os alicerces da amizade; em sua construção a forma do afago; e em seu acabamento, a alegria de poder estar junto.
E o que mais interessa: a certeza de que certas amizades são para sempre.
Jânio Dias
Escrito por Jânio Dias às 09h57
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O Tempo Todo
Eu brinco o tempo todo
Para ser feliz todo o tempo
Eu falo o tempo todo
Para fingir o tempo inteiro
Eu ouço o tempo todo
Para aprender todo o tempo
Eu sorrio o tempo todo
Para agradar o tempo inteiro
Eu amo o tempo todo
Para ser amado o tempo inteiro
Eu beijo o tempo todo
Para ser beijado todo o tempo
Eu ando o tempo todo
Para chegar o tempo inteiro
Eu paro o tempo todo
Para ser visto todo o tempo
Eu escrevo o tempo todo
Para expressar todo o tempo
Eu canto o tempo todo
Para aliviar o tempo inteiro
Eu finjo o tempo todo
Para enganar todo o tempo
Sou feliz o tempo todo
Para aproveitar o tempo inteiro
Paulo Giovani de Assis
05/09/2006
Escrito por Jânio Dias às 09h57
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Minha Casa
De pedra em pedra
Nasce um sonho
De sonho em sonho
Nasce uma casa
De amigo em amigo
Se preenche os quartos
De amor em amor
Se constrói um par
De quintal em quintal
Se faz uma festa
De janela em janela
Se contempla e espera
De dia em dia
Se muda a rotina
De tarde em tarde
Se fecham as cortinas
De lâmpada a lâmpada
A noite se ilumina
De noite em noite
Se ama e descansa
De quadro em quadro
A alma se revela
De disco em disco
Se compõe a sua trilha
Entre vários sorrisos
Se expressa a alegria
Entre vários amigos
Se ergue a casa que é minha
Paulo Giovani de Assis
31/08/2006
Escrito por Jânio Dias às 09h57
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