Vestígios do Dia



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Personal Values (1952), de René Magritte

 

"Atrás da porta guardo os meus sapatos

Na gaveta do armário coloco minhas roupas

Na estante da sala vejo muitos livros"

 

Biquini Cavadão em, Meu Reino

 

 

"Mas era feita com muito esmero

Na rua dos bobos, número zero"

 

Capital Inicial em, A Casa

 

 

"Ergueu no patamar quatro paredes sólidas

Tijolo com tijolo num desenho mágico

Seus olhos embotados de cimento e lágrima" 

Chico Buarque em, Construção



Escrito por Jânio Dias às 19h20
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TIJOLOS PARA UM SONHO

 

The Art of Conversation (1950), de René Magritte

 

 

Vou começar a construir uma casa. Uma casa para morar e repousar meus cd´s. Uma casa para abrigar os livros que não tenho e a cesta de basquete que sempre quis ter. Uma casa para ter um cachorro me esperando no portão. Para retirar pessoalmente as correspondências na caixinha do correio. Para ser incomodado pelas crianças que apertam a campainha e saem correndo. Para olhar da janela e ver quem é. Para observar da minha calçada como o filho do vizinho cresceu. Para perceber como os galhos daquela árvore estão grandes, e quanto maiores, mais bonita a árvore fica, e logo alguém irá chamar a prefeitura para cortá-los. Uma casa no alto da rua onde o ar parece mais límpido e o céu mais imediato da gente.

 

Já faz algum tempo que tenho o terreno, e até cheguei a ensaiar que iria construir, acho até que parecia mais verdade do que é hoje. Existia um par e até um desenho. Quartos em cima para o descanso noturno, filhos e hóspedes. O desejo de uma sala grande para encher de almofadas e velhos amigos. Um porão imaginado como salão de festas. Comprei blocos, cimento, areia, pedra e ferros. Tirei os blocos da calçada e coloquei do lado de dentro com as minhas próprias mãos. Sentia-me parte do terreno como o mato que nasce nele. Mas parecia que ia demorar tanto e que nunca ficaria pronta. Que tudo era demasiadamente caro e impossível de alcançar, que não havia pressa ou motivos para tanto sacrifício. Errado. Tudo errado. Não havia pressa mas havia urgência. Urgência de se ter um lugar para mudar a vida e o futuro. Um canto para ficar com ela. Para eu sentir seu canto. Sempre precisei dela e quando esteve tão próxima, deixei-a passar. O homem nunca sabe o canto que tem nas mãos.

 

Hoje quero retomar o projeto. Recuperar o desenho que não se apagou do desejo e da memória. Queimar o mato seco, cortar a terra e espalha-la para nivelar. Fazer as vigas, fortalecer a base, e subir as paredes. Dar forma aos rascunhos da mente.

 

Pena que nunca fumei. Esse seria o momento ideal para parar. Vou precisar economizar e podia começar pelo cigarro. Bebo, mas nunca comecei de verdade. A linha de largada sempre esteve à minha frente e nunca foi ultrapassada. Vou ter que dar um tempo com a aspirina para dor de cabeça. Ou será que vou precisar ainda mais delas agora? É, o amendoim. Sem cerveja, sem amendoim. Nada de barzinho, cinema, muitos kilômetros de carro por aí ou show internacional. No máximo um Kasebre Rock Bar. Mas é tão longe... Nada de Kasebre também. Presentes caros para a mulher amada, nem pensar. Aquele All Star verde musgo vai ficar bem mais para frente.

 

Tudo porque vou construir uma casa. Eu que o máximo que construí até hoje foi uma casinha para o cachorro que ficou tão ruim que nem ele queria ficar lá. Eu que tô sempre ao contrário, sempre desconstruindo, estou me propondo a construir. Uma casa longe, numa rua calma e verde, para os amigos sentirem em cada segundo de viagem o prazer de virem na sexta e só voltarem depois do futebol de domingo. Uma casa num lugar distante para eu morrer de vontade de poder chegar. Uma morada para encurtar a distância. Um abrigo para acomodar a dor da demora. Um refúgio para abraçar a alegria de alcançar. Um canto para suscitar a inspiração de quem nunca pôde cantar.

 

Pensando melhor, tô sempre construindo, sim. Construindo amores e lembranças que são sempre guardados e lembrados. No peito apertado e na retina marcada. E logo em uma futura casa.

 

Uma casa pequena. Mas que chamarei de minha.

 

 

Jânio Dias



Escrito por Jânio Dias às 19h20
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