
Futebol I, de José Roberto Aguilar, 1966.
Matar ou morrer. Assim é encarada a segunda fase da copa do mundo de futebol. Ou você mata o adversário, ou o adversário te mata. Quase sempre é assim, e assim foi com a Alemanha e Argentina. A Argentina parecia que iria eliminar 80 milhões de alemães em pleno território inimigo. Parecia. Mas aí o técnico argentino abriu mão do ataque, recuou, se encolheu, se acovardo em campo. A Alemanha que havia ido encarar o inimigo para sair viva no final, foi para cima, brigou como pôde, foi destemida, e conseguiu um bravo empate e logo depois a vitória nos pênaltis. Assim foi com Portugal e Inglaterra, outra batalha até os pênaltis. A Inglaterra jogando com um a menos desde os quinze minutos do segundo tempo. O time inglês não tinha o coração na ponta da chuteira com se vê nos jogos de Portugal, mas seguiu valente durante o jogo todo, passando pela prorrogação até os pênaltis também. Morreu bravamente, nas mãos do guerreiro-goleiro Ricardo.
Já a seleção brasileira (Seleção? Que seleção?), ao contrário da Argentina que lutou recuado e acovardado contra o gigante alemão (mas lutou), ou a Inglaterra que seguiu lutando com um a menos até o fim, ou Portugal que transpira sangue e lágrimas em seus jogos, onde o treinador transcende o papel de técnico e vai além sendo mais um jogador, mais um torcedor, mais um guerreiro, onde o banco de reservas vibra como se estivessem em campo, o time brasileiro entrou quase morto contra um adversário conhecido, perigoso e sempre letal. Quase morto porque Lúcio, Juan e Zé Roberto lutavam em campo. Pareciam descendentes de Luiz Felipe Scolari. Mas não era o suficiente. Aí foi fácil para a França. Foi fácil e belo para Zidane, um eterno guerreiro que vinha há muito adormecido. Divertido para Thierri. Empolgante para os Argentinos.
Foi difícil acreditar no que se viu no sábado. Difícil e revoltante. Um time formado de jogadores campeões e consagrados em seus clubes na Europa. Todos são atualmente campeões ou vices. Todos do mais alto nível técnico. Alguns dos mais habilidosos do mundo. Técnico reconhecido mundialmente. Reservas que formariam uma segunda seleção capaz de disputar o título com a primeira. A arbitragem, quando errou, errou a nosso favor. O que deu errado, então?
Venderam-se? O grupo se dividiu entre veteranos e novatos? Vaidade extrema? Preocupações com recordes e com a condição de titular intocável? Não sei. Não consigo entender. Não consigo ficar triste. Só indignado. Decepcionado. Farto de tanto acreditar. Tanto falaram em "show é ganhar", que cheguei a acreditar que havia ao menos objetivo no grupo. Não um objetivo nobre, inspirador, contagiante e de encher os olhos de beleza, mas um objetivo comum, porque copa do mundo, é matar ou morrer.
Mas não, nada disso. Não houve vontade, dedicação, comprometimento, princípios, união, entrega, respeito a nação. Não houve nada, além de ilusão.
Antes da copa, imaginava que veria aquilo que aprendi a gostar de ver nos videos-tapes da história do futebol: beleza e show. E que com um técnico teórico e tático, teríamos magia e competitividade. Que enfim, meus olhos veriam ao vivo a lenda do futebol-arte materializar-se na telinha da tv. Mas, assim como aconteceu recentemente na política e com a estrela vermelha no poder, tudo não passava de um efeito temporário de uma pílula genérica azul, aquela oferecida no filme Matrix para não vivermos a realidade real, a verdade verdadeira, e sim a plantada em nossos cérebros. Tudo o que esperei não passou de efeitos proporcionados pelos sentidos, onde na verdade, não sabemos nada de nada e de realmente profundo; tudo o que se passou na minha mente, era só imaginação.
Jânio Dias
PS.: vejo quase que diariamente a imagem acima, numa estação de metrô aqui de São Paulo, mais precisamente a estação Trianon-Masp. Por incompetência pessoal e analfabetismo virtual, não fui capaz de levantar o autor para o devido crédito. Caso alguém saiba, a informação será muito bem vinda.