Vestígios do Dia



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AINDA O FUTEBOL

Futebol,  de Francisco Rebolo, 1936. 

 

"No trem entre Munique e Dortmund, lembro que vim para a Alemanha com a sensação de que viajava para a Copa da Espanha, em 1982. Veria um time brasileiro que faria o mundo festejar um futebol de sonhos, independentemente do resultado. Mas a sensação mudou. Eu não estava Munique. Estava em São Francisco, em 1994. Só o resultado interessa. Às favas com o espetáculo, que futebol não é divertimento. É indústria que só valoriza quem ganha. Não importa se com espetáculo feio, porque futebol não é teatro e técnico não é maestro. Músicos não habitam os gramados".

Juca Kfouri em, Que Copa é esta?, 20 de junho de 2006, na Folha de São Paulo.

 

"Não há por que ter orgulho de haver nascido aqui e não ali, deste lado e não do outro da fronteira. Pátria, num sentido mais amplo, é o que forma o nosso caráter e a nossa afetividade. O que nos leva a ter um sotaque, um humor, um jeito de ser. Se eu dissesse "Tenho orgulho de ser brasileiro", seria uma declaração retórica, vazia, e sobretudo falsa. Não posso ter orgulho algum de haver nascido e de viver num país que lidera rankings de desigualdade social, de corrupção, de violência urbana e rural. Só tenho orgulho de ser brasileiro quando penso nos gols de Pelé, nas canções de Caymmi, nos filmes de Glauber Rocha. Mas o argentino Maradona também fez gols que me emocionaram, o norte-americano Cole Porter também compôs canções geniais, nenhum cineasta é maior que o japonês Ozu. Todo esse discurso só tem o objetivo de relativizar essa coisa de "torcer pelo Brasil". Reencontrei no livro "Fome de Bola" (Imprensa Oficial), de Luiz Zanin Oricchio, um parágrafo de Eduardo Galeano que assino embaixo: "Com o tempo acabei assumindo minha identidade: não passo de um mendigo do bom futebol. Ando pelo mundo, de chapéu na mão, e nos estádios suplico: -uma linda jogada, pelo amor de Deus! E quando acontece o bom futebol, agradeço o milagre - sem me importar com o clube ou o país que o oferece". Nesta Copa, até agora, os momentos de bom futebol não foram proporcionados pela camisa amarela. Quem sabe hoje?"

José Geraldo Couto em, Mendigo do futebol, ontem, na Folha de São Paulo.

 

Pois é, os últimos dias não foram fáceis. Tudo começou com a estréia do Brasil na Copa, no dia 13 último. Uma vitória sofrida contra a Croácia, um time mediano, por apenas 1 a 0, num gol resultante de jogada individual do Kaka. Um Ronaldo fora de forma e sonolento em campo, completamente ausente, grogue, sem parecer saber onde estava e o que estava acontecendo. Um time desorganizado, sem jogadas de ligação entre meio campo e ataque, sem inspiração, sem brilho, sem ginga, sem samba, sem nada. Por cinco dias convivi com a desculpa que era o nervosismo da estréia, que depois passaria e o time se encontraria. Mentira. Continuou perdido e sofrendo em campo contra uma seleção ainda mais inferior que a Croácia, a Austrália, que assim como os Americanos, chamam futebol de soccer (quem chama futebol de soccer bom sujeito não é; ou é ruim da cabeça ou doente do pé). Como brilhantemente estava em algum lugar da Folha de São Paulo do dia seguinte: Brasil 2, Magia 0.

E apesar de alguém parecer ter avisado ao Ronaldo "fofomeno" onde ele estava, ainda continuava grogue, sem reflexo, furando bisonhamente duas bolas que um centroavante de verdade ou no mínimo profissional, não fura, no primeiro tempo de jogo. E também ninguém avisou ao Ronaldinho Gaúcho que ele não precisa levar ao pé da letra o que o turrão Parreira diz, de que ele deve ficar mais fixo no meio de campo, atrair a marcação adversária e lançar a bola para os nossos atacantes, quando no Barcelona ele joga mais à frente, lançando e atacando ao mesmo tempo. Na seleção sua função também é defender; no Barcelona ele não se preocupa com isso. Não! Alguém precisa dizer a ele: "não seja tão obediente Ronaldinho". Como a sábia Soninha disse em seu blog, o Parreira nunca deve ter proibido o Lúcio de ir ao ataque, mas ele vai sempre, até mais do que realmente devia.

E então, meu sonho de ver um time de sonhos, parecia haver acabado. O sonho havia virado pesadelo em dose dupla, pois além de sermos decepcionantes em campo, a Argentina fez contra a Sérvia (um time mais forte que a Croácia), o que eu esperava que o Brasil fizesse em seus jogos. Não pela goleada em si, mas pelas lindas jogadas coletivas, pela força e talento de vários jogadores e o resultado final de lindos gols. Fiquei triste e feliz. Foi um pesadelo estranho, onde fiquei triste e feliz. Triste porque era a Argentina, mas feliz pelo futebol.

E ontem fui assistir ao nosso terceiro jogo sem fé e entusiasmo. Descrente mesmo. Mas sem querer "admitir-admitindo" a feiúra do nosso futebol em campo, eis que o Parreira surpreende e escala nada menos que cinco jogadores reservas. E a alegria voltou a rodar novamente o nosso futebol. E agora que não há mais espaços permitidos para sonolência de jogador, teimosia do treinador ou erros em campo, vamos ter de encarar a doce alegria irresponsável do futebol de Gana, já nas oitavas. Êta esporte injusto...

Injusto e intrigante. No futebol, mesmo jogando feio, é sempre mais feliz quem ganha. Não é à toa que jogar bonito e vencer, sempre está relacionado a sonho. E mesmo assim, não deixa de ser apaixonante.

Jânio Dias



Escrito por Jânio Dias às 10h45
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