Seus olhos pararam naquele olhar. Ficou ali, imóvel, como que absorvido por uma estranha força que o paralisava. Ficou olhando e se perdendo em meio àquela corrente oculta de energia que o prendia. Era apenas um olho, aberto, verde, com um fundo amarelado ao redor, acompanhado de meio sorriso longo e meia boca de lábios carnudos e avermelhados.
Os sons haviam silenciado. Seus movimentos ainda não se manifestavam. A luz diminuiu e por alguns instantes, apenas os fios de cabelos claros e lisos que caiam encobrindo parte daquele meio rosto, iluminavam a contemplação daquele instante.
Era um rosto inclinado de lábios semi-abertos deitados em sua direção. Emitiam sons que o puxavam para mais perto. Sussurravam os versos de uma doce e inebriante canção. "Strawberry fields forever..." Eles se repetiam pausadamente. Ele fechou os olhos e se deixou tocar por aquele ar quente e sonoro. "Strawberry fields forever..." Levantou uma das mãos e sentiu o ar mais quente e denso ecoando em seu ouvido. Ficaram mais fortes e vibrantes mudando para "The sky is blue / my hand untied / a world that´s true / through our clean eyes / just look at you / with burning lips / your living proof / at my fingertips" . Ele tentou abrir os olhos mas não conseguiu olhar. Como se fosse uma cena do filme À Espera de Um Milagre, dezenas de borboletas coloridas saiam de dentro daquela meia boca. Ele se assustou momentaneamente, mas o som que as acompanhavam o tranquilizou. Não se esforçou mais para tentar ver o que acontecia, apenas ficou sentindo o som diminuir a intensidade até se parecer com uma leve brisa que batia em suas costas.
Ao se virar, abrindo lentamente os olhos, ele pôde perceber que era noite, o céu estava limpo e estrelado, a lua era prata e estava pela metade, e que estava numa praia, de frente para o mar, onde as ondas quase alcançavam seus pés, molhando seu tênis, que antes de estar ali era vermelho, mas naquele instante era nitidamente lilás. Olhando em direção ao mar, ele viu mais a frente alguém em pé, contemplando a agitação das águas. Estava de costas prá ele, sem movimento algum, olhando em linha reta. Tinha os cabelos longos e claros, quase que luminosos. Usava uma camiseta branca e justa. Uma calça jeans surrada com barra desfiada. Tinhas os pés descalços e molhados.
Ele se aproximou pelo lado esquerdo do corpo daquele ser que tinha um brilho verde e amarelado. Era uma menina, linda, um pouco maior que ele, parecia séria e misteriosa, mas havia ternura também. Ela continuava olhando para o mar, sem virar o rosto. Ele deu mais dois passos à frente e a contemplou. Observou seu corpo esguio e bem desenhado. Parou alguns segundos o olhar em sua camiseta branca e justa que denunciava que não havia mais nada por baixo. Nela havia estampado o desenho de um carrinho de fórmula 1, e em letras garrafais estava escrito grand prix. Ele acabou lendo em voz alta e complementou soltando sem pensar o que poderia significar aquilo: "eu tenho esse disco!".
Foi então que ela virou o rosto em sua direção, e ele olhou nos olhos dela. Eles brilhavam o verde mais bonito que já havia visto. Seu cabelo deslizava pelos dois lados da face. Sua boca tinha um sorriso inteiro e os lábios mais atraentes que ele havia imaginado um dia tocar. Ele sentiu um impulso quase que incontrolável de beijá-los, antes mesmo de ouvir sua voz, saber quem era e de onde vinha. Mas antes que pudesse se inclinar para senti-los, ela falou docemente: "você não quer conhecer a minha voz, saber como falo, se sou meiga ou feroz, se sei dançar ou cantar, escrever ou nadar?" Ele, obsecado por aquela beleza presente por inteiro em sua frente, disse pausadamente: "Quero ver você cantar, então". O sorriso da menina ficou ainda maior, seu olhar ainda mais indefinido e misterioso, seus lábios cada vez mais tentadores, quando começaram a se movimentar e cantar de forma agridoce: "your love is the place where I come from / when I'm on my own I'm lost in space / my freedoms a delusion / your love is the place where I come from..."
Ele se aproximou confiante e a beijou, de maneira cuidadosa e suave. A doce e delicada canção ecoava em sua mente como que se movimentasse e se expandisse ali dentro. Abriu os olhos e os flashs da pista de dança o deixaram ofuscado e confuso. Olhou ao redor e dezenas de pessoas balançavam os braços para cima ao som de uma outra canção. Mais a frente viu a menina branca de cabelos lisos e brilhantes que estava em sua mente, feliz e bela se divertindo. Foi até o bar, pegou uma bebida, e voltou para perto dela cantando:"...she knows what you know / I know what she's thinking / should be kissing, should be kissing... lips like sugar / sugar kisses / lips like sugar..."
Havia no céu daquela noite um meio sorriso, uma meia lua e uma estrela inteira.
Jânio Dias