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CONFISSÃO
Confesso que beijei a menina, plantei uma árvore, e que estava naquele show. E isso me torna parte da história.
Jânio Dias
Escrito por Jânio Dias às 21h35
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MEU SAMBA É ROCK
Provavelmente você entende: meu bloco já passou pela avenida. Já rasguei a fantasia. Minha quarta-feira de cinzas já se espalhou no vento. Foi dia 22 último. Meu carnaval já aconteceu. A folia começou na sexta, 17, numa viagem para o Rio, se desenrolou no dia 18 com mais de um milhão de pessoas ao redor, voltou a São Paulo no dia 19, e no dia 20 vi pela televisão a catarse e emoção que me aguardava no dia seguinte. Fui obrigado a pular na terça também. E meu carnaval acabou. O carnaval mais feliz de todos os tempos. Histórico.
Ainda é quase inconcebível pra mim: Rolling Stones e U2 num intervalo de dois dias. Stones na praia, na areia, na calçada; entre a multidão, o perigo, o medo, a beleza e o calor de Copacabana. Rolling Stones nos braços tatuados, nas línguas estampadas, nos velinhos e filhos, no cara gritando “coca, água, skol”, no palco grandiloqüente, na menina escandalosa de biquíni, na tiazinha da ala das baianas, nos meninos enrolando seus cigarros no calçadão; nos prédios, no alto, no mar, nas canções que sobrevivem aos anos, no corpo invejável de Mick Jagger, na guitarra incansável de Keith Richards, na bateria equilibrada de Charles Watts; na noite iluminada, na energia sugada, e na história cantada.
U2 na tv, dentro de casa, a respiração presa e os olhos úmidos no conforto do sofá e do lar. U2 no dia seguinte, no Morumbi, nas filas quilométricas, no lado de fora do estádio, no trânsito engarrafado, nas camisas da seleção, nas pessoas, nos namorados, no beijo de momento histórico, no pai e na filha, na divisão das lembranças, na separação das gerações, nos cambistas e na polícia. U2 dentro, atrás dos portões, no concreto, no gramado protegido, nas luzes e imagens nos telões, na celebração aguardada, na energia doada, na arquibancada que vibra, nos pés que pulam, nos braços que balançam, nos sorrisos contentes, nos abraços de “conseguimos”, nas lágrimas caídas, nos corações felizes.
Meu samba é uma emoção popular.
Jânio Dias

Terça-feira, 21/02, samba e folia no Morumbi, SP.
Escrito por Jânio Dias às 21h29
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TODO CARNAVAL TEM SEU FIM
Você já se sentiu como integrante ativo da história?
Beijou a menina mais bonita quando ninguém achou que você fosse capaz? Entrou no segundo tempo de um jogo e fez o gol decisivo do seu time da escola? Ou você era muito ruim pra isso e apenas jogava no gol, mas mesmo assim defendeu aquele pênalti tão importante quanto o gol? Foi as ruas e gritou abaixo à ditadura ou diretas já? Foi preso e coisas piores porque acreditava em ideais políticos? Fez questão de votar pra presidente com 16 anos só porque você acreditava que poderia mudar a história? Participou de passeata com o rosto colorido pra derrubar presidente e conseguiu? Escutou antes da maioria das pessoas um disco que ficaria marcado para sempre como divisor de águas no mundo da música? Assistiu no cinema um filme que mudaria a concepção de fazer filmes? Esteve naquele show que todo mundo gostaria de ter estado? Ou esteve presente ao último show daquela banda que era “a banda”? Plantou uma árvore, fez um filho ou escreveu um livro?
Há momentos na vida de uma pessoa que não pertencem só a ela. Fazem parte de um todo, de uma multidão. Uns são valiosamente pessoais, outros influenciam coletivamente. Ambos pertencem ao tempo, à história. São como o carnaval para quem desfilou na escola campeã. São como o baile de formatura ou o casamento na igreja para quem sempre desejou. São como a preservação de uma espécie em extinção para o ativista. São como a descoberta do átomo para o cientista. São como o mistério do graal para o historiador. São costumeiros e raros, belos ou trágicos. Às vezes simples - e sempre mágicos.
Mágicos como o último final e início de semana. Rio, Copacabana, Rolling Stones - canções que superam o tempo. São Paulo, Morumbi, U2 - canções que permeiam no tempo.
Pena que todo carnaval tem seu fim.
Jânio Dias
Foto: Folha Imagem

Sábado, 18/02, Copacabana beach, Rio: “...hoje tem palhaçada, riso e risada, o circo chegou”
Escrito por Jânio Dias às 20h05
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