VOCÊ NÃO VIVEU 2005 SE...*
... não odiou os políticos ao menos uma vez por dia, os 365 dias do ano.
Clovis Rossi, 62, colunista da Folha
... não disse para alguém: “Se eu te fizer uma ‘lipossucção’, você botox em mim?”
... não pensou em se tornar vegetariano com tanta gripe do frango e febre aftosa.
Newton Moreno 36, diretor de teatro e dramaturgo
... não acompanhou a eleição de Severino à presidência da Câmara. Foi a maior demonstração de incompetência política da história e a primeira vez em que um tosco deputado do baixo clero assumiu um dos três mais importantes cargos do país.
Maílson da Nóbrega 63, ex-ministro da Fazendo, economista e consultar, autor de “O Futuro Chegou” (Ed. Globo, R$ 45)
... não trocou as novelas pelo maior show de interpretação tragicômico da televisão brasileira: o espetáculo das CPIs, perdendo as ilusões em relação à atuação do maior líder popular da América Latina, Lula.
... não ficou com o refrão “Hoje é festa lá no meu apê” martelando o seu pobre ouvido em todos os lugares.
... não se emocionou e torceu pela Daiane dos Santos evoluindo ao som de “Brasileirinho”.
... não ficou perplexo diante de um plebiscito de última hora e mais perplexo ainda com o resultado.
Luís Melo 48, ator
... não sentiu que a barbárie no país chegou ao limite do insuportável ao saber que, aliciada pelo tráfico de drogas, uma garota de 13 anos participou do atentado contra o ônibus 350, no qual cinco morreram queimados.
Kennedy Alencar 38, repórter da Folha na Sucursal de Brasília
... não viu o Paulo Maluf preso. Agora faltam a condenação e o confisco dos bens. Maluf é o símbolo do tratamento pouco republicano dado pelos políticos tupiniquins aos recursos públicos. Virou até verbo sua forma de fazer política.
Marco Antonio Villa, 50, é historiador e autor de “Jango: Uma Biografia” (ed. Globo, XX págs., R$ XX)
... não se perguntou: “O que são estas pulseirinhas de borracha que todo mundo está usando?”.
“Seria uma senha pra entrar em alguma barbada?”
Grace Gianoukas 42, diretora e atriz da Terça Insana
... não tomou partido na briga entre Caroline Bittencourt e Daniella Cicarelli no casório que se desmanchou feito chantilly.
Bruna Surfistinha Raquel Pacheco, 21, ex-garota de programa e autora de “O Doce Veneno do Escorpião” (Panda Books, R$ 22,90)
Escrito por Jânio Dias às 01h41
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... não percebeu de relance uma suasticazinha bordada na anágua do novo papa!
Walter Neves 48, antropólogo, professor do Instituto de Biociências da USP
... não se deu conta de que existe pobreza abjeta nos EUA, como a revelada em Nova Orleans após a passagem do Katrina.
Carlos Nobre 54, pesquisador do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Inpe
... não viu Ronaldinho Gaúcho jogando futebol. Eu o vi contra o Chelsea, em Londres, e ele brilhou, driblando os adversários como um deus e marcando um gol sublime que parecia estar acontecendo em câmera lenta.
Carl Honoré 38, canadense, autor de “Devagar” (Editora Record, R$ 39,90)
... não sentiu saudade dos anos 80. Rolou um “revival” dessa época em 2005, e descobrimos que a década maldita teve muita coisa que vale a pena lembrar.
Marina Person 36, VJ da MTV
... não leu sobre o discurso do dramaturgo e poeta britânico Harold Pinter contra os EUA na cerimônia de entrega do Prêmio Nobel de Literatura de 2005. Pinter classificou a invasão do Iraque de “um ato de banditismo” e propôs que o presidente George W. Bush e o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, fossem julgados como “criminosos de guerra”.
Eduardo Suplicy 64, senador (PT) por São Paulo
... não foi ao show do Pearl Jam no Pacaembu. Não pela banda em si, já um tanto “déjà vu”, mas pelo evento em si. Quem não foi perdeu a visão global de todo um “new bicho-grilismo”.
Antonio Bivar 64, escritor, dramaturgo e autor
... foi passar as festas de final de ano na Tailândia em 2004.
Cocadaboa Mr. Manson (Wagner Martins), 26, editor do site Cocadaboa.com
Escrito por Jânio Dias às 01h41
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... não baixou música da internet, queimou um CD com um disco que ainda não tinha sido lançado, comprou (ou sonhou com) um iPod, mandou um MSN, se cadastrou no Orkut, participou de alguma comunidade, fuxicou “scrapbooks” alheios, procurou uma banda no MySpace...
... não vibrou em um show dos Strokes, não se emocionou com os velhinhos do MC5, não ficou encantado com o Arcade Fire, não cantou junto com o Weezer, não quis subir no palco do Iggy Pop, não requebrou junto com a M.I.A., não empurrou a bolha gigante do Flaming Lips, não morreu de vontade de ver o White Stripes tocando do lado de fora do histórico teatro Amazonas...
... não viu o craque Ronaldinho Gaúcho fazer malabarismos em propaganda da Nike, chutar de longe a bola no travessão, a bola voltar no peito dele, ele mandar de novo na trave, ela voltar. E aí você não acreditou no começo, depois acreditou, depois não, depois sim. Até confessarem que era truque e você ainda assim achar que o Ronaldinho seria capaz de fazer aquilo.
... não viu a fantástica série “Lost”, passou a ter pavor infinito de viajar de avião, pensou numa teoria conspiratória que explicasse o que estava acontecendo na série, foi pesquisar sobre as teorias malucas ditas por outras pessoas, ligou para um amigo para conversar sobre “detalhes incríveis que passaram despercebidos” e ainda tentar adivinhar, em vão, um final para essa trama sinistra.
... não falou “Não é possível que ele não deu esse pênalti! E ainda expulsou o cara!!”, quando o Tinga, do Internacional, invadiu a área corintiana, levou uma voadora do goleiro Fábio Costa e ainda recebeu o cartão vermelho, num pênalti claro que, se convertido, poderia ter mudado o rumo do Brasileirão.
Lúcio Ribeiro 41, colunista da Folha
... não vibrou com o gol do Correa contra o Fluminense, que selou a vitória do Palmeiras por 3 a 2 e classificou o time para a Libertadores.
José Serra 63, prefeito de São Paulo pelo PSDB
* trechos retirados de matéria de capa publicado na REVISTA DA FOLHA em 18/12/05
http://www1.folha.uol.com.br/revista/rf1812200504.htm
Escrito por Jânio Dias às 01h41
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