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FRAGMENTOS DE UM ABORTO
“Há muito tempo atrás, numa galáxia muito distante...” Havia em Brasília uma turma de jovens filhos de professores universitários, diplomatas ou funcionários público de carreira. A turma tinha uma espécie de líder, um aglutinador, um cara que aparecia com idéias e atitudes que quebravam a rotina tediante daqueles filhinhos de papai numa cidade militar sem opções de entretenimento.
Foi nesse período que a turma começou a se agitar e formar suas bandas de rock. A mais lendária e histórica delas, o embrião, a semente plantada, o big bang do rock de Brasília, se chamava Aborto Elétrico. Apesar da fama, influência, conseqüência, e principalmente dos planos de conquista de seu líder, o Aborto jamais gravou um disco. Seus registros eram caseiros, em fitas cassetes gravados em pequenos aparelhos domésticos que eram trocados entre o pessoal da turma, atiçando a imaginação e vontade de se ter a própria banda.
O Aborto Elétrico era tão casual, motivado pela amizade e descoberta do punk, que nem fotos há da banda inteira. Eram muito mais ensaios do que apresentações. Era em essência a necessidade de se expressar, de quebrar regras, violar condutas, extravasar o inconformismo e provocar a ditadura militar, chamar a atenção de outros jovens e mostrar opiniões através de uma linguagem totalmente nova e rebelde para a cidade: o rock.
O Aborto causava reações diversas nas pessoas. De repúdio à paixão a primeira vista. Numa tarde voltando da escola, o jovem Fernando, então apenas com 16 anos, se deparou com aquelas figuras que usavam roupas rasgadas e alfinetes pelo corpo tocando uma massa sonora indecifrável na calçada de um bar. Para ele aquela imagem foi “reveladora”. Ele gostou tanto do que viu que passou a acompanhar todos os ensaios. Gostava mais de Aborto do que Ramones, heróis da “revelação” para toda a turma. E para ele, o vocalista que usava óculos pequenininho, que era tímido e desengonçado, que escrevia aquelas letras que chocavam alguns e aproximavam tantos outros, que tinha o quarto mais completo sobre o universo do rock em toda Brasília, era profundamente impactante, “um festival para os sentidos”.
Quando o Aborto acabou, o baterista Fê e seu irmão Flávio Lemos chamaram o guitarrista Loro Jones que tinha tocado no Blitx 64 e no Dado e o Reino Animal para formar uma nova banda. Chegaram a ensaiar com uma mulher nos vocais, Heloisa, que era filha de general, mas não rolou. Então marcaram um teste para escolher um vocalista definitivo. Fernando apareceu e teve que cantar/gritar a música Psicopata. Foi o escolhido.
Quando os ex-Aborto, Fê e Flávio, começaram com o Loro a montar repertório para a nova banda, Fernando insistiu com os companheiros para que utilizassem algumas canções do repertório do Aborto Elétrico. Fê e Flávio concordaram em incluir as canções Fátima e Veraneio Vascaína. Mas havia uma música que Fernando conhecia de um cassete de ensaio do Aborto que estava inacabada, só havia uma estrofe na letra. Então ele decide ligar para Renato, seu ídolo e compositor de todas as letras do Aborto. Ele fala sobre a canção, pedindo para que Renato terminasse a letra. Renato então pediu para que ele anotasse umas coisas. Terminou a música naquele instante mesmo, pelo telefone. A canção era Música Urbana.
Quando aconteceu a primeira apresentação da nova banda dos irmãos Lemos, Renato estava presente no público, onde pôde presenciar pela primeira vez a Elite Sofisticada (uma espécie de contra-ponto à incrível Plebe Rude). Após a apresentação Fê procurou Renato para saber o que ele havia achado. Renato foi breve: - “Elite Sofisticada foi do caralho!” Fê insistiu: - “E agente?” Renato foi breve e abrangente: - “O lugar do Fernando é no Palco”.
O garoto impactado pelo “festival para os sentidos” era Fernando Ouro Preto, já conhecido e tratado naquela época como Dinho. A figura impactante, o líder e aglutinador da turma era Renato, o Junior ou Manfredo, que numa homenagem intelectual e literária aos filósofos Jean-Jacques Rousseau e Bertrand Russell, assumiria como sobrenome a marca artística de Russo, que seria o líder da banda mais importante da história do rock feito no Brasil. A banda nova dos irmãos Fê e Flávio Lemos era o Capital Inicial.
Jânio Dias
Escrito por Jânio Dias às 09h51
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O ABORTO DO POETA (ou... Um Segredo de Quatro Letras*)
Um dia, meados de 1978, um garoto branco filho de um professor da UNB (Universidade de Brasilia) retorna à capital federal usando calças rasgadas, alfinetes no corpo e coleira de cachorro no pescoço, após um período na Inglaterra onde acabara de conhecer o som de bandas como Sex Pistols, The Clash e Ramones. Seu sonho era ter uma banda. Seu nome: Felipe Lemos, também conhecido como Fê Lemos.
Um dia, numa noite qualquer de Brasília de 1978, um garoto magro, cabelos pretos e encaracolados, introvertido, devorador de livros e de cultura musical, que gostava de chocar e chamar a atenção das pessoas, que tinha o quarto mais interessante entre os jovens da sua turma, vai a uma festa usando uma capanga e segurando um guarda-chuva, acompanhado de seus discos importados dos Ramones, The Clash e Sex Pistols. Ele sabia tudo de Beatles e adorava Sid Vicious, baixista do Sex Pistols. Nessa noite ele conhece Fê Lemos. Ficam amigos. Seu sonho era ter uma banda. Seu nome: Renato Manfredini Junior, também conhecido entre os amigos de turma como Junior ou Manfredo.
Um dia, bar Taverna, Asa Sul de Brasília, 1978, um garoto loiro sul-africano de quase dois metros de altura e de porte atlético, filho do embaixador da África do Sul, chama a atenção de Junior, que o acha parecido com o ídolo Sid Vicious de sua imaginação, e logo o questiona: - “Do you like Sex Pistols?” O Sid Vicious loiro responde emblematicamente com o melhor do espírito punk: - “Yeah!” Ficam amigos. Seu sonho era ter uma banda. Seu nome: Andre Fredrik Pretorius.
Um dia, a junção do encontro e da amizade desses três faz com que comecem a ensaiar diariamente a mesma canção: "Now I Wanna Sniff Some Glue", dos Ramones. O sonho de ter uma banda estava quase pronto: Pretórius era o guitarrista, Renato o baixista, e Fê o baterista. Faltava agora um nome para a banda.
Um dia, diz a lenda, a policia repressora do governo militar do presidente Geisel invadiu os centros acadêmicos da UNB para reprimir uma manifestação estudantil. Os policiais chegaram em Veraneios e segurando cassetetes que davam choques. Uma jovem estudante, grávida, foi atacada com um desses cassetetes elétricos. A menina teve um aborto. O som do três amigos seria influenciado drástica e diretamente pela repressão do governo militar.
Um dia, conta até hoje o sobrevivente Fê, estavam os três embaixo do Bloco A da Colina pensando num nome para batizar a banda. Fê que havia visto alguns shows de bandas punks na Inglaterra como Damned, Stranglers e Buzzcocks, cita um grupo americano, Eletric Flag e sugere: - “Podia ser Tijolo Elétrico...”. De repente, Pretórius dá um pulo em cima do banco de concreto do Bloco A e diz: "O nome vai ser Aborto Elétrico!". Fê e Renato olham um para o outro e decretam com a melhor resposta punk: - “yeah!”.
Um dia, janeiro de 1980, acontece enfim o primeiro show do Aborto Elétrico no bar Só Cana no Lago Sul. Tocaram cinco músicas próprias, todas instrumentais. Ao término da última música, começaram a tocar tudo novamente. Pretórius estava empolgado com a primeira apresentação. De repente sua palheta quebrou e ele cortou os dedos nas cordas. Mas ele não parou de tocar. O sangue escorreu manchando a guitarra e a camisa branca do sul-africano loiro. Dizem que quem estava no bar ficou chocado mas gostou, e rapidamente a notícia de que uns maconheiros-punk-sem-vergonha que faziam música violenta se espalhou. Renato adorou. Alguma coisa diferente estava acontecendo. Outros jovens começaram a se articular e montar suas próprias bandas e fazer o seu próprio barulho. Era o puro espírito punk.

"Do you like Sex Pistols?"
Escrito por Jânio Dias às 02h25
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Um dia, pouco depois da apresentação do Só Cana, André Pretorius é convocado para servir o exército sul-africano. Renato então convida Flávio Lemos, irmão de Fê para tocar no Aborto. Como ele não tocava nenhum instrumento, Renato passou para a guitarra e ensinou o Flávio a tocar baixo. As composições surgiam fáceis, agressivas e raivosas. “Fátima” por exemplo foi escrita em dez minutos. Flávio estava improvisando no seu instrumento e o Fê começou a acompanhar quando Renato ouviu e disse parecendo inspirado: - “Continuem tocando isso aí que eu to pensando um negócio aqui...” E começou a escrever a letra ali, naquele instante. Deu cinco minutos e o Flavio e o Fê se cansaram de tocar, e o Renato insistiu pra que eles continuassem tocando: “Continua... continua...” O repertório do Aborto Elétrico era todo composto de músicas que falavam de insatisfações e incompreensões juvenis, como em “Tédio – com um T bem grande pra você”: “...Se eu não faço nada fico insatisfeito / durmo o dia inteiro e aí não é direito / e quando escurece só estou afim de aprontar / Porque moro em Brasília”; ou “Construção Civil”: “O que você vai ser quando você crescer? / Nas fotografias o que você vai ver? / O tempo passa e você vê que existem coisas / que você nunca imaginou que existissem...” Ou carregadas de explosivo teor sócio-político como “Que País é Este?”: “Nas favelas, no senado / Sujeira pra todo lado...” e “Veraneio Vascaína”: “Cuidado pessoal lá vem vindo a Veraneio / toda pintada de preto, branco, cinza e vermelho / com números do lado / Dentro, dois ou três tarados / Assassinos armados, uniformizados...”.
Um dia, num show na cidade Satélite, Renato estava especialmente triste, longe e desatento ao show. Foi quando Fê atirou uma baqueta na cabeça do cantor da banda mais importante de Brasília; ele olhou pra trás furioso, mas continuou tocando. Depois do show ele desapareceu. Era aniversário da morte de John Lennon, um de seus grandes ídolos.
Um dia, já março de 1982, quando a banda já era um quarteto com a entrada de Ico Ouro Preto na guitarra, deixando Renato livre para os vocais, os quatro ensaiavam uma nova música sobre os anseios juvenis. Fê que achava estar de alguma forma em outra fase, passando por uma linha sonora evolutiva, vivendo o pós-punk com Joy Division e New Order, diz para o Renato: “Essa música é muito ruim, você está perdendo o seu jeito de fazer música”. Renato pensava exatamente o contrário sobre aquela canção que dizia: “Não saco nada de física / literatura ou gramática / só gosto de educação sexual / e eu odeio química, química, química...”
Era o fim do Aborto do poeta punk. O início do Trovador Solitário. E o princípio de um novo segredo. Mas essa, é uma outra história bonita pra contar.
Jânio Dias
Bibliografia recomendada:
- CD Rom – Revista Bizz 20 anos;
- Livro: Dias de Luta – Ricardo Alexandre;
- Livro: O Diário da Turma 1976-1986: A História do Rock de Brasília – Paulo Marchetti.
* Sub-título inspirado em texto de Carlos Marcelo – revista Bizz (jan 2000, ed.174)

Fê Lemos, membro fundador do Aborto Elétrico

Flávio Lemos, que subistituiu Andre Pretorius no AE
Escrito por Jânio Dias às 02h25
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