HARD TO EXPLAIN
“Óóóhhhhh God... thanks, thanks, thanks, thanks...”
Julian Casablancas durante show em SP, na edição paulista do TIM Festival (provavelmente não acreditando que aquilo estava acontecendo...)
“Eu nunca havia me apaixonado por uma banda que não conhecia, assim, logo de cara; tão instantaneamente. O negócio é louco e mágico ”
Tatiana Siqueira, sobre a primeira impressão e contato com Arcade Fire, no TIM Festival.
“Estou em estado de graça... inundada por uma espécie de encanto, por ter vivido desde os poros até o coração a imensidão e a beleza das palavras, da música e do mundo”
Bruna Couto, sobre a noite de domingo do TIM Festival, via SMS.
“Foi foda, caralho!... caralho, que foda!”
Anônimo, após apresentação da banda Strokes na edição do TIM Festival em SP (ou o meu próprio imaginário... ainda não tenho certeza de que aquilo aconteceu de verdade)
E então se fez a luz... e onde não existia verde, passou a existir. Onde não havia chão para pisar, passou a existir. Onde não nascia grama, passou a nascer. Onde não havia espaço para criar, passou a ter. E onde não havia flores para enfeitar e espinhos para incomodar, passou a ter.
É mais ou menos assim o rock nos anos 00. É mais ou menos assim a importância da banda Strokes nos anos 00. Antes e depois. E ontem em São Paulo foi possível ter idéia da dimensão desses fatos ao presenciar e viver um show histórico para trinta mil pessoas. Uma sucessão de hits, programados no papel, mas tocados aleatoriamente, cantados ensandecidamente pelo público. Um show que poderia começar com qualquer música, e que pode terminar com qualquer música, porque não há ali música ruim.
Um show com um cantor feliz com o público que tinha a sua frente. Às vezes parecia não acreditar direito na reação constante de felicidade que transbordava na platéia. Platéia dividida entre um espaço na frente do palco para duas mil pessoas, e um outro para vinte e oito mil, mais atrás. Divisão que apenas reflete o espírito do nosso próprio país, onde constantemente a felicidade fica mais próxima de uma restrita minoria. Mas esse povo aqui é especialista em driblar as mais diversas situações. Mesmo esmagado, empurrado, prensado um contra o outro, cada um deles foi capaz de pegar um pedacinho pra si dos flashs de luz que vinham do palco transformando-os em ecos sonoros de alegria que iluminaram o Anhembi e a alma da banda. Um show histórico para quem tão raramente é contemplado com algo dessa grandeza.

Escrito por Jânio Dias às 22h31
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E a contemplação aconteceu duas vezes. Antes de o competente Kings of Leon abrir a noite para o Strokes, o público do Anhembi foi agraciado por uma apresentação incrível, emocionante e inusitada da banda canadense Arcade Fire. A melhor banda de todos os tempos da minha última semana só intensificou a paixão desses últimos dias, conquistando e arrebatando ainda mais corações.
Foi chocante vê-los no palco. Fiquei paralisado. Comovido. Todos vestiam preto, pareciam de luto e estar chegando de um enterro. Havia duas mulheres, cinco homens, e na maioria das vezes, eu não sabia quantos eram. Na terceira música minha amiga Tati me pergunta: - “Ué, pensei que era uma mulher que tocava o teclado... ” Na quinta canção foi a minha vez: - “Mas o baterista não era um homem?!”. E logo em seguida, ambos: “O que o vocalista tá fazendo lá no teclado?!”. É uma loucura, eles ficam se revezando nos instrumentos, existe um capacete que fica sob o teclado, o violoncelo é substituído por um acordeom, um outro integrante batuca tudo o que vê pela frente, desde o capacete até o próprio companheiro de banda... e o mesmo (acho) parece se auto-mutilar no fundo do palco...
E ao vivo suas lindas e emocionantes canções ganham ainda mais densidade e dramaticidade. É a celebração da dor e da perda, da loucura e da ilusão. Um show para chorar. Um show para celebrar os que estão vivos.
Uma noite onde quem não tinha motivos para cantar, passou a ter. Onde não havia pelo quê se emocionar, passou a ter. E quem não tinha de quem lembrar, passou a ter.
Ou como cantou Julian Casablancas, difícil de explicar.
Jânio Dias

Escrito por Jânio Dias às 22h31
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