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FUNERAL
“Somethin’ filled up my heart with nothin’, someone told me not to cry. But now that I´m older, my heart´s colder, and I can see that it´s a lie.”
Arcade Fire em, Wake UP
Vamos lá, a hora é agora. Outubro nunca foi um mês bom mesmo, nem para comemorar dia das crianças ou cumprir promessas em Aparecida. Então, chegou a oportunidade de matá-lo e ficar mais uma vez feliz na vida. É que é tempo de levantar a cabeça, secar as lágrimas (ou não), preparar o espírito e lembrar que outubro está quase indo embora; e esquecer... esquecer o Curitiba Rock Festival, esquecer o dia 16 de cada mês, esquecer a podre política nacional, esquecer esse enganoso campeonato de futebol... porque esse fim de semana tem... TIM Festival. Ou melhor, tem Strokes! Ou melhor, tem Arcade Fire e Strokes! Ou melhor, tem Arcade Fire, Strokes e canções novas do disco que ainda nem saiu do Strokes!
É, o nosso Brasilzinho aqui vai ser agraciado com músicas mundialmente novas da banda que devolveu a graça, o charme, a beleza, a inquietação e algum sentido não definível e mensurável ao rock. É, teremos Strokes, a banda que tornou o rock novamente importante e iluminou todas as portas e janelas para tantas novas bandas importantes.
E por falar em bandas importantes, além das “atrações-sensações-da-hora” que o TIM Festival traz ao nosso país nesse fim de semana como Wilco, Kings of Convenience e Kings of Leon, ou gente um pouco mais carimbada como Television e o veteraníssimo Elvis Costello, eu preciso destacar uma banda nova lá, e novíssima cá, The Arcade Fire. Ainda não faz nem uma semana que estou com o cd dessa incrível banda canadense e não consigo ouvir outra coisa. Até os meus ensaios para o show do Strokes foram cessados. Ainda é uma relação de amor muito nova e inquietante para se fazer elucubrações acerca do que é e do que será, mas como toda arrebatadora primeira paixão, a intuição aqui é fortíssima de amor que deixa marcas.
Veja, o que se pode falar de uma banda que no encarte aparece uma foto com cinco pessoas, há assinatura de seis, e nos shows parece que são oito, mas na gravação do disco foram quinze com direito a piano, violino, violoncelo, harpa, xilofone, clarim, e (eu pensava que era um instrumento brasileiro) acordeom? O que falar da música que pode ser agressiva e pop como uma banda pós-punk e também ser doce, angelical e instantaneamente triste como... Belle and Sebastian? O que dizer da banda que escreve quatro músicas com o mesmo nome (Neighborhood), declarando a saudade e o amor por aqueles que se foram, ou implorando num misto de desamparo: “Jesus Christ don´t keep it hid!... What´s the plan? Is it a dream? Is it a lie? I think I’ll let you decide... Where´d you go?!” ? O que dizer de letras que versam basicamente sobre a ilusão de estar vivo ou o destino inevitável e irremediável de todo ser humano, a morte? O que falar de uma banda que ao ter em seus integrantes quatro familiares mortos antes das gravações fazem um disco chamado Funeral?
Eu ainda não sei o que falar... talvez apenas que me encanta e me emociona. Ou que Funeral é um disco lírico e onírico, que às vezes é profundamente triste, constante e irremediavelmente belo.
E que quero matar e enterrar esse outubro, com vestígios de uma noite de domingo com Strokes ao vivo.
E quando eu for embora, não, não quero música alguma da Legião ou De Onde Vem a Calma do Los Hermanos como trilha. Quero Arcade Fire como réquiem, para um sonho.
Jânio Dias
Escrito por Jânio Dias às 12h41
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