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SOBRE MARIPOSAS, SERPENTES E LANTEJOULAS
Eu não odeio os anos 80. Tenho profunda admiração, respeito e carinho por essa década que tanto contribuiu poética, musical e intuitivamente para os anos... 00. Sim, para os anos 00. Os anos 90 simplesmente desprezaram a década anterior, descartando suas conquistas e vicissitudes. Foram nos 80 que surgiram os poetas imortais do rock nacional como Herbert Vianna, Arnaldo Antunes, Cazuza, Julio Barroso, Lobão e Renato Russo. Depois deles, nunca mais surgiu alguém que fosse capaz de misturar postura rebelde e contestadora, anseios juvenis, poesia, emoção e arte. Uns foram mais rock'n'roll que outros, mais contestadores que outros, mais exagerados e extremos que outros. Dessa leva extrema só sobrou o Lobão, que há muito renunciou ao rock como um dia o conhecemos e voltamos a conhecer com e após os Strokes. Hoje em dia até temos um verdadeiro poeta que ainda flerta com o rock como Marcelo Camelo, mas esse está à beira do precipício, pronto para virar um Paulinho da Viola. No plano internacional, ninguém foi tão poeta e brilhante quanto Morrissey (Smiths), Robert Smith (The Cure) e Ian McCulloch (Echo and The Bunnymem). Tá, tivemos um gênio nos anos 90 que foi Kurt Cobain, e muitos creditam esse título ao Tom Yorke (Radiohead) também. Mas Kurt foi uma tempestade que passou e deixou para sempre suas marcas e estragos. Tom Yorke só fez rock até o terceiro disco, depois entrou numa viagem espacial aparentemente sem volta.
Musicalmente, os anos 90 foram um salto. Perdemos a poesia escrita, mas fomos contemplados com a evolução - para o bem e para o mal - da tecnologia e o seu uso para a massificação da música eletrônica. Outras variantes do rock e comportamentos foram criados. O Rock em si continuou existindo na forma de Oasis ou Smashing Pumpkins. Mas depois do Ok Computer do Radiohead, parecia que ele havia morrido novamente. Até quem em 2001surgiu Strokes e tudo mudou de novo, ou voltou a ser como já tinha sido. E ao mesmo tempo em que vivemos outra vez um boom de criatividade sonora com Franz Ferdinand e White Stripes, temos festas e manifestações incessantes por todos os lados onde se mistura Trem da Alegria, Balão Mágico, Sidnei Magal e Rosana com... Smiths, The Cure ou Bauhaus. Tem gente que dança e canta Menudo.
Essas festas viraram uma praga. São um monte de coisas estranhas que se tornam engraçadas. Um monte de conceitos bregas criados quando adolescentes e fixados quando adultos que desaparecem por uma noite. Para quem está lá, aquilo é apenas uma festa, e sua essência é a alegria. E o maior perigo e prazer que existe por lá, é a feliz nostalgia que desperta no sub-consciente da pessoa. Por serem as músicas de uma época em que se tinha, sei lá, seis, sete, oito, dez, doze, ou até quinze anos, as pessoas viram literalmente crianças, colocam prá fora sua criança livre há tanto tempo adormecida, e regressam felizes a um período que às vezes nem era assim feliz, mas que de alguma forma, naquele momento, acaba sendo. Acho muito válido curtir uma noite nostálgica assim; mas apenas uma noite. Acho perigoso fazer disso uma máquina do tempo onde se vive com entusiasmo e euforia aquilo que passou, se perdeu e que era rejeitado.
Acredito que seja mais válido, inteligente e educativo um evento como aconteceu nesse último fim de semana no Sesc Pinheiros, sob o comando de Kid Vinil. Em duas noites foram reunidos artistas que representaram o rock feito no Brasil nos anos 60, 70, 80, 90 e atual. Houve apresentações de artistas como Tony Campelo, Clemente (Inocentes) e Andreas Kisser (Sepultura). Na noite de domingo, na qual estive, houve apresentações de Jerry Adriani (mostrando como se rebolava nos anos 60 com covers de Elvis), Oswaldo Vechione (da banda Made in Brazil nos anos 70), Nasi (do Ira!, homenageando o rock de Brasília e São Paulo), Léo Jaime e Kid Vinil (mostrando o bom humor de parte do melhor que aconteceu nos 80's) e Ludov, representando o que há de melhor nos dias atuais.
Pena que foi pouco para cada um. Deveria ser no mínimo uma semana inteira, uma noite para cada período ou misturando as décadas. Mas mesmo em uma hora e meia foi divertido, emocionante e educativo. Por exemplo, eu nunca havia ouvido Made in Brazil. E adorei. Em duas músicas apenas foi possível sentir um pouco das guitarras setentistas e do glamour roqueiro reinante daquele período no exterior, não no Brasil em si. Veja que o nome da banda é Brasil com Z, deixando claro que o rock era feito aqui, mas não um produto com ramificações em nosso país.
Escrito por Jânio Dias às 23h44
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Isso foi brilhantemente observado num debate no sábado, 16/07, sobre Raul Seixas no Sesc Ipiranga, pelo Músico Laert Sarrumor do Língua de Trapo, em evento complementar à exposição Eu Nasci há 60 Anos Atrás. Ele observou que Raul Seixas talvez seja o único músico do rock nacional que realmente fez rock brasileiro, pois este misturava em suas canções ritmos tipicamente da cultura nacional como Xaxado, Baião, Forró e Sambão. O debate teve ainda as presenças do fã e maior autoridade sobre Raul, Sylvio Passos, do Jornalista e crítico de música Pedro Alexandre Sanches, e do músico e professor universitário Walter Garcia, presenciados por uma pequena platéia de fanáticos e doentes por Raul Seixas.
Foi destacado a importância e o talento do músico, sua dificuldade em separar o homem do mito criado, o fanatismo quase religioso dos fãs, sua mensagem lúcida de como encarava a vida e o sistema dentro do personagem de maluco beleza; ou observado seu conceito de ilusão dentro de um mundo fictício e realidade criado por ele. Tudo isso de forma fragmentada, rápida, não compartilhada plenamente pela dezena de fanáticos que lá estavam.
Houve um momento tenso em que o jornalista Pedro Alexandre tentou levantar a questão do auge da fama do músico que aconteceu durante a parceria com o mago Paulo Coelho, onde tentava mostrar que o escritor não havia sido assim tão ruim para o músico como pregam os fãs, pois seus maiores sucessos resultaram exatamente dessa junção. Nesse momento os fãs ficaram agressivos com o crítico como se tivesse cometido uma blasfêmia contra o imortal. Eu, particularmente, fiquei com a vontade de dizer coisas parecidas com o que o Pedro havia dito na sua explanação inicial como: "por muitos anos eu não conseguia gostar de Raul Seixas, pois ele me parecia bregão, misturava rítmos que nada tinham a ver com rock, e sempre foi considerado roqueiro..." Ao contrário do Pedro, que tinha dificuldades, e muitos anos depois após começar a ter um contato mais íntimo com as letras das canções perdeu esse preconceito em torno do artista, eu ainda tenho e alimento. Considero-o brega, plagista, e não consigo entender a mistificação em torno de um ser em que o que é considerado obra prima (e concordo que sejam mesmo obras primas) foi escrito por outra pessoa, no caso Paulo Coelho. Concordo com sua importância como figura roqueira que existiu e tudo que isso significa para a contestação, modificação ou até evolução do comportamento de uma sociedade, mas não o considero gênio. Acho que Edgar Scandurra consegue ser mais importante.
Se a Daslu consegue provocar tamanha revolta e inconformismo em caciques como Antonio Carlos Magalhães, a ponto do mesmo chorar em plenário porque a amiga dondoca foi presa por crimes de sonegação fiscal, formação de quadrilha e criação de empresas fantasmas... se o Jorge Bounhausem (testa de ferro da era e da pessoa Fernando Collor de Mello) vem à público dizer que os investidores se afastarão do Brasil porque há a possibilidade de serem presos... se o Governador de São Paulo diz que vai mandar apurar o suposto abuso de autoridade por prender a dondoca delinqüente que ficou presa por 12 horas, se todo o PSDB e PFL concordam em fazer uma manifestação pública contra as investidas da Polícia Federal, organizar passeatas contra as investigações da Receita Federal que atingem mega-empresas e empresários, os mesmos que sempre se calaram durante as chacinas nas favelas do Rio ou da periferia de São Paulo, os mesmos que defenderam os filhos da classe média alta de Brasília que colocaram fogo no índio, que apoiaram o governo militar e nada fazem contra o governo Lula porque este mantém uma política econômica que os agrada, e se todos eles sempre acharam e continuarão achando que a “miséria é miséria em qualquer canto, as riquezas são diferentes”, eu passo a achar que quem sabe viver a vida mesmo e é feliz mais do que qualquer um de nós, é o Léo Jaime: - “Estamos aqui para nos divertir e divertir vocês. Os críticos, esses podem se fuder”.
Jânio Dias
Escrito por Jânio Dias às 23h43
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