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O SOPRO DO DRAGÃO - no início, um sonho
“Que povo é este? O povo é povo ou é elite? O Povo é a fonte do poder ou é a vítima do poder? (...) Que povo é esse que quer um Brasil novo, mas finge confiar na elite do passado? Que povo é esse que quer a modernidade, mas namora a velharia? Haverá um povo digno de ser povo, que não queira manifestar a sua voz, a própria voz do povo? Que setor do povo seria esse? Seria acaso um povo morto? Nosso povo é um povo vivo. Vota em povo. Vota em Lula”
Golfredo Telles Junior, professor emérito da Universidade de São Paulo, em A Voz do Povo, 1994.
“Luis Inácio falou, Luis Inácio Avisou: são trezentos picaretas com anel de doutor. Eles ficaram ofendidos com a afirmação que reflete na verdade o sentimento da nação. É lobby, é conchavo, é propina e jetom, variações do mesmo tema sem sair do tom. Brasília é uma ilha, eu falo porque eu sei, uma cidade que fabrica a sua própria lei, aonde se vive mais ou menos como na Disneylândia; se essa palhaçada fosse na Cinelândia, ia juntar muita gente pra pegar na saída, pra fazer justiça uma vez na vida(...)”.
Herbert Vianna em, Luis Inácio (300 Picaretas), 1995.
“(...) Quando a esperança desaparece, só o álcool dos botecos miseráveis faz viajar os trabalhadores responsáveis, ao verem seus devaneios e pedidos serem vendidos por igrejas e partidos (...)”.
Fernando Bonassi em, O Que Acontece Quando a Esperança Desaparece, 2005.
Não faz muito tempo que um garoto de 14 anos, no despertar de sua juventude e (in)consciência política, esbravejava contra o próprio pai e dizia como se tivesse pelo menos 14 anos a mais: “Pai, esse cara é uma farsa, ele vem dos seios da ditadura, o Maluf é padrinho de casamento dele, a Globo apóia a candidatura dele, todos os empresários estão com ele... só o Lula nos representa.” O Pai replicava com a sabedoria do poder do marketing televisivo e global, imperador da época: “filho, ele acabou com os Marajás de Alagoas, é jovem, rico, fala algumas línguas, a Globo e os empresários gostam dele, e é amigo pessoal do Maluf...” O filho sabia que não tinha como ir muito longe naquele papo, seu próprio nome (escolhido pelo pai) remetia ao ultra conservadorismo de direita que deu origem à mais longa e cruel ditadura que o país vivera; que não adiantaria em nada contar o que havia aprendido com a professora de OSPB na escola (ela era militante da ala radical do partido da bandeira vermelha e do cara barbudo das greves, não teria credibilidade), ou falar sobre o que havia lido de coragem, ousadia e idealismo no livro do Fernando Gabeira (esse era seqüestrador, guerrilheiro, comunista e veado), ou falar das perseguições, torturas, sumiços de estudantes, morte de jornalista e da névoa escura do regime militar tão bem dissipada no livro do Zuenir Ventura. Era tudo juvenil e puro demais.
Escrito por Jânio Dias às 18h15
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O SOPRO DO DRAGÃO - a efervescência da adolescência
Era quase outubro de 1989 quando o diálogo acima se passou. Antes dele, em janeiro, um novo golpe político-econômico havia sido tentando novamente pelo governo José Sarney, ao congelar mais uma vez preços e salários; em março, Madonna provocava mais uma vez o mundo – e principalmente a igreja católica - com o videoclipe de “Like a Prayer”; em abril, ia as bancas a revista Veja com Cazuza na capa, com a oportunista e degradante manchete: “Uma vítima da aids agoniza em praça pública”; em junho, um estudante chinês enfrentava sozinho, com o corpo deitado no chão, uma fila de tanques de guerra na Praça da Paz; em agosto morria Raul Seixas, aos 44; em outubro, a Legião Urbana lançava o quarto disco, As Quatro Estações, e Renato Russo votava em Roberto Freire do então PCB, no primeiro turno para Presidente da República, na primeira eleição direta pós ditadura; foram para o segundo turno Fernando Collor de Mello e Luis Inácio Lula da Silva; em matéria no Jornal Nacional sobre debate presidencial no segundo turno, a Globo editaria imagens e conteúdo de forma à favorecer Fernando Collor; em horário eleitoral gratuito de tv, Collor levaria ao ar uma ex-mulher de Lula que afirmara ter feito aborto, Collor venceria as eleições presidenciais; em novembro cairia o Muro de Berlim, o símbolo do comunismo era derrubado, e a Alemanha voltava a ser uma só. E o Brasil acharia que passaria a viver um dos períodos mais negros da história da democracia Brasileira.
Os anos 80 tão relembrados e celebrados musicalmente hoje, já tão desprezados naquela época, chegariam ao fim marcados pela posse de Fernando Collor e seu inconseqüente e irresponsável plano econômico, onde confiscava os depósitos bancários (acima de, talvez hoje, R$ 20.000) na intenção de frear a economia, e, assim, controlar a inflação. Marcariam também o fim dos anos 80 fatos irrelevantes ou importantes como o primeiro programa Acústico levado ao ar pela MTV americana, a primeira derrota de Mike Tyson, o primeiro presidente da União Soviética – Mikhail Gorbachev, a morte de Cazuza, a estréia da MTV brasileira com o clipe de Marina Lima em Garota de Ipamena, e a entrega do prêmio Nobel da Paz a Gorbachev pela luta ao fim da guerra fria. Os anos 80 passariam a ser conhecidos como “A Década Perdida”.
Os anos 90 começariam ao melhor estilo americano, com a Guerra do Golfo comandada por Bush pai, e a realização do segundo Rock in Rio no Estádio do Maracanã. Nevermind do Nirvana seria lançado naquele ano, mudando a história do rock. Aconteceria a morte de Freddie Mercury e a dissolução da União Soviética. No ano seguinte, a Legião Urbana gravaria um especial de tv para a MTV, anos depois conhecido como Acústico MTV – Legião Urbana. A PM Paulista executaria – oficialmente – 111 presos na penitenciária do Carandiru, e Bill Clinton seria eleito presidente dos Estados Unidos. Collor, afundado no mar de lama de corrupção e improbidade administrativa, iria a tv em rede nacional pedir à população que fosse as ruas com roupas brancas em forma de apoio ao seu governo; as pessoas saem às ruas vestidas de preto. A Legião Urbana canta em sua curta turnê do quinto disco: “não me entrego sem lutar / tenho ainda coração / não aprendi a me render / que caia o Governo então”. Em todo país, estudantes pintam as caras e vão às ruas exigir a saída de Collor; Collor renuncia, e Itamar Franco assume a Presidência. O partido da bandeira e estrela vermelha, passa a ser o maior exemplo de idoneidade, moral e ética entre todos os partidos.
Escrito por Jânio Dias às 18h14
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O SOPRO DO DRAGÃO - a entrega da terra
Logo em seguida viveríamos os anos FHC, também marcado por glórias e desgraças musicais ou esportivas. Mas o que marcou mesmo, foi o frustrante governo FHC, partindo da expectativa de ser alguém com a biografia de Fernando Henrique Cardoso. O mundialmente respeitado e badalado sociólogo, estudioso profundo das causas da miséria, dezenas de livros publicados sobre o assunto, referência bibliográfica para estudantes de todo o mundo, político de centro-esquerda, teoricamente inimigo daqueles que estiveram e mantiveram-se no poder durante e pós ditadura, tornou-se presidente. Tornou-se presidente aliando-se aos principais mantedores do período ditatorial.
Seu governo foi profundamente marcado pela entrega do Estado ao poder privado (o governo chegou a ponto de vender estatal ao valor simbólico de R$ 1,00; ou mesmo a ponto de financiar a compra). O controle da inflação com base numa disfarçada amparidade cambial. A compra de votos de deputados (R$ 300.000,00 cada) para aprovação da emenda da reeleição. Passada a reeleição, o retorno a realidade com a desvalorização da moeda. A inflação passou a ser controlada com base no aumento de juros estratosféricos.
Fernando Henrique como intelectual, sempre foi considerado um defensor de idéias Marxistas. Enquanto presidente, manteve-se concentrado unicamente no controle da inflação, esquecendo-se das desigualdades sociais existentes no país, que tanto foram estudadas por ele. Durante seus oito anos de mandato, foi o legítimo representante dos grupos dominantes instalados no país, aprofundando cada vez mais as diferenças sociais e econômicas da grande população.
Escrito por Jânio Dias às 18h11
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O SOPRO DO DRAGÃO - pisca uma estrela
Sobrou apenas Luis Inácio Lula da Silva, o companheiro Lula. Nasceu e foi criado no berço da pobreza, comeu e ficou sem comer o pão que o diabo amassou. Veio pra cidade grande em pau-de-arara. Só chegou ao curso primário, foi Torneiro Mecânico e perdeu um dedo trabalhando em fábrica. Apenas com sua inteligência, dignidade, liderança e vontade de mudar as coisas que achava errado, entrou para a história como líder sindical que lutou pelos trabalhadores contra o regime militar. Fundou o PT, com apoio de inúmeros intelectuais de esquerda.
Foi candidato quatro vezes a presidente. Na primeira, foi descaradamente roubado. Nas duas seguintes, a elite dominante tinha calafrios com discursos em que se ouvia: “Banqueiro tem que ter medo do PT. Não é normal num país os bancos ganharem o que estão ganhando aqui" (revista "Caros Amigos", novembro de 2000).*
"Tendo em vista os lucros que tiveram o Itaú, o Bradesco e os outros bancos, o Fernando Henrique Cardoso não é nem pai; ele é pai, mãe, avô, avó, tio, tia do sistema financeiro, que nunca ganhou tanto dinheiro como está ganhando agora ("Pasquim", fevereiro de 2002).*
"Não podemos, não queremos e não devemos pagar a dívida externa" ("Diário do Grande ABC", outubro de 2002). *
"Recentemente, um banqueiro declarou a um jornal de São Paulo que o presidente argentino Fernando de la Rúa só chegou ao poder porque, desde o começo de sua campanha, garantiu que seguiria as instruções do FMI caso fosse eleito. É isso que queremos para o Brasil? Continuar sendo capacho dos investidores internacionais, que vão diminuir nosso conceito de B para C cada vez que abaixarmos os juros?" (artigo para o "Diário do Grande ABC", julho de 2000). *
"O mesmo governo que tem o poder de elevar os juros de 19% para 49,5% tem o poder de baixar. O Fernando Henrique aumenta os juros, mas, na hora em que é para baixar, ele diz: "O mercado é que vai decidir". Eu acho que é uma decisão política" ("Caros Amigos", novembro de 2000).*
"O empresário tem que ter medo do PT, pessoas que degradam o meio ambiente têm que ter medo do PT, pessoas que praticam corrupção têm que ter medo do PT, aqueles que querem manter relações com o Estado entrando pela porta dos fundos têm que ter medo do PT" ("Caros Amigos", novembro de 2000).* (*retirado da coluna de Clovis Rossi, Folha SP, 11/06/05).
Escrito por Jânio Dias às 18h10
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O SOPRO DO DRAGÃO - a esperança se vai
Na quarta vez, decidiu fazer as “pazes” com as classes dominantes, e, em carta aberta à nação - uma espécie de contrato público direcionado aos interesses internacionais e seus negócios nacionais - prometeu que, se eleito, nada mudaria na política econômica. E realmente, nada mudou. Homem de palavra. Chegou a fazer mais: fez as malditas e demoníacas alianças que o FHC já havia feito para chegar ao poder. Para ter os votos dos evangélicos, fez seu Vice um empresário de origem humilde do PL, o partido de maior bancada evangélica do congresso; fez acordos com o PTB e ficou íntimo do maior defensor público da era Collor e companhia, Roberto Jefferson.
Contudo, não foi para isso que tantos esperaram 20, 30 anos por mudanças. Não foi pra isso que tantos foram torturados e mantiveram-se calados. Não foi pra isso que tantos morreram ou nunca mais tivéssemos notícias deles. Não foi lutando tanto tempo contra o terror que alguém pudesse imaginar, que um dia, ele estaria ao lado; por todos os lados, e por dentro; enraizado.
"Sempre desconfiei de que havia um grupo que fazia do Congresso um balcão de negócios. [...] O Fernando Henrique foi eleito sob a embalagem do novo, mas não inovou nem na fisiologia. [...] O Congresso está funcionando como uma bolsa de valores fomentada pelo Executivo e precisamos investigar essa corrupção". Lula em 1997. ** (**retirado da coluna de Elio Gaspari, Folha SP, 15/06/05).
Hoje, 2005, quase dois anos e meio no poder, em nome da Governabilidade do País, paga-se subornos mensais para o demônios do passado. Ministérios que controlam bilhões anuais em orçamento são distribuídos para a tal base aliada. Milhares de “cargos de confiança” são criados e distribuídos aos membros do partido, ou disputados ferozmente entre aliados. O presidente da Câmera (o Severino, do PP, da base aliada, do Sr. Paulo Mafuf) desafia o governo em praça pública exigindo ministérios e mais cargos para seus afilhados, em troca de votações positivas no congresso. E no momento crucial de tomar atitudes que demonstrem a velha idoneidade, o governo se refuta, trazendo à tona, o mais cruel e triste caso de suspeita de improbidade administrativa da história da vida democrática.
E agora, como é que tantos milhões de eleitores ficam? Tantos milhões de pobres que depositavam sua última esperança em alguém, e conseqüentemente, na democracia, ficam? Como ficam todos os anos de espera, daqueles que colheram tantas histórias bonitas, e sobreviveram para contar decentemente, e, logo, entrar para a história dignamente, ficam?
O pior de tudo isso, pior que saber que nada mudou com a estrela vermelha no poder, é saber que tudo isso significa que não há mais esperanças para mudanças. É constatar que após tantos anos insistindo, discutindo com parentes, desconhecidos e amigos, impondo sempre o sentimento da certeza e verdade absoluta de que aquelas pessoas realmente acreditavam no que pregavam, e que saberiam exatamente o que fazer quando chegassem lá, é a inevitável certeza de que não há mais espaços para sonhos. Que não há mais lugar para romantismo juvenil e ideológico. Todos se foram, e alguns nem se quer chegaram a existir de verdade. E que aquele garoto de dezesseis anos atrás, não vai saber o que dizer quando encontrar novamente com o seu pai.
Jânio Dias
Escrito por Jânio Dias às 18h08
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