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Irmãos Plebeus
Ainda estava no palco dando início àquela tarde histórica uma nova banda de Brasília que não fui capaz de guardar o nome, mas que fazia um som decente e digno aos que vieram gerações atrás, quando passa na minha frente de chinelos e uma pequena câmera digital na mão o lendário Philippe Seabra, tentando registrar breves momentos dos meninos que estavam no palco e tinham idade para serem seus sobrinhos.
Quando o Philippe voltou da breve sessão fotográfica, um estojo com os três primeiros e históricos cd´s da Plebe o esperavam para serem autografados. Parecendo surpreso ele comenta: - “Nossa, isso aqui é uma raridade, só houve a impressão de três mil cópias dessa caixinha”. Ele assina e faz o desenho clássico do congresso de Brasília com a língua de fora, marca registrada da banda. Preocupado, ele pergunta: - “Cadê a galera, não vem?”. Sem querer desanimá-lo, o amigo Marcelo tenta explicar que era um dia de muitos acontecimentos importantes na cidade. Mal sabíamos que a galera ainda estava chegando e que se aqueceria na lama produzida pela chuva no decorrer dos outros shows.
Pergunto a ele como a banda estava, se teríamos o prazer de ver a Plebe completa naquela tarde, ele responde pacientemente: - “O Jander não tá mais afim, mas preparamos uma surpresa bem legal, acho que vocês vão curtir. Sabe o Clemente?, ele vai fazer a vez do Jander”. Olho para o amigo e parceiro Marcelo e quase falamos juntos: - “O Clemente do Inocentes???” - “É, olha ele lá”, diz Philippe apontando para o fundo da estrutura coberta do Sesc. – “E o Clemente é o Clemente”, completa sorrindo. Concordamos balançando positivamente a cabeça meio ainda sem acreditar direito: - “É, o Clemente é o Clemente!”.
Quando a lenda punk passa e pára para falar com agente pergunto: - “e aí, então você vai substituir o Jander hoje?” Ele responde num misto de grosseria com este que vos escreve e reverência ao grande Jander: - “Que substituir que nada, ele é insubstituível; vou apenas fazer a minha e já era”.
Três horas depois, com muita chuva e lama para todo lado, muitos de cueca brincando de escorregar pelo morro gramado do Sesc, a Plebe ainda era aguardada pelos plebeus. Uma Plebe sensivelmente modificada em sua estrutura entra no palco: Gutje se foi, ou não o querem mais lá; e Jander prefere trabalhar na produção técnica de outros medalhões do pop-rock nacional.
Mas a peculiaridade dos vocais manteve-se intacta. Continuam sendo dois, mas agora ainda mais agressivo, em técnica, postura e presença no palco. Philippe teve a grande idéia de convidar simplesmente um ícone do punk-pânico de SP: Clemente, sinônimo de Inocentes.
E como fez a dele! Empunhando a sua guitarra, e fazendo os vocais que eram do Jander sem esquecer e até improvisando nas canções, o paulista Clemente até parecia fazer parte da história do Rock de Brasília. Aliás, parecia que sempre esteve ali. Não que o Jander não tenha feito falta com a sua postura sisuda, comportada, na dele, segurando sua viola de 12 cordas e contrapondo a voz do Philippe, mas a presença do Clemente deu um ar menos rústico e mais fraterno junto ao público. Ele pulou, fez solo, desceu até a grade, agitou o Sesc, motivou e secou a galera.
É como se tivesse ficado mais divertido ver a Plebe, sem descaracterizá-la ou prostituí-la. É a mesma Plebe das canções de protesto e indignação. A Plebe das letras ácidas, som cru e pungente. A Plebe de “A Ida”, “Censura”, “Um Outro Lugar” ou “Proteção”. A Plebe que tem mais raiva que medo. A Plebe Rude de Brasília, e tudo que isso tem de mais bonito e sagrado. A Plebe Rude que você precisa conhecer.
Jânio Dias
Escrito por Jânio Dias às 23h46
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