Vestígios do Dia



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Irmão Dinho

 

 

Carmem entrou cantando Passanger em sua versão original à lá Igg Pop, depois do segundo verso ela olha pra trás em direção ao baterista que ao vê-la faz uma virada sensacional em seu instrumento transformando completamente o clima momentaneamente intimista, em chamas no palco. Entra Dinho Ouro Preto incendiando e cantando.

 

Para quem conhece o Palco do Sesc Itaquera, ou já viu pela tv o palco do Sesc Interlagos onde é apresentado o programa Bem Brasil da TV Cultura, sabe que existe um vão grande que separa artista e público. Se o Dinho estivesse em Interlagos, provavelmente ele teria nadado até o outro lado, mas como era Itaquera, ele apenas desceu do palco e foi até a grade e pegou de alguém na platéia um violão que era insistentemente oferecido a ele de lá. Ele voltou para o palco com o instrumento e fez um gesto de tocar, mas dali não sairia nenhum som que pudesse ser compartilhado. Então ensaiou um outro e impensado gesto para quem via ali debaixo. Ele fez menção de tacar o violão no chão, o garoto que havia dado o violão fez um sinal de positivo com uma mão e com a outra posicionou a máquina digital em direção ao palco, e a platéia entusiasmada gritou “quebra, quebra, quebra...” E de repente só se ouviu “plaft, plaft, plaft...” misturado aos rifs de Que Pais é Este, e a galera foi ao delírio, como se o time da casa tivesse feito um golaço. Em seguida apareceu um outro violão na platéia sendo oferecido, ofertado, oferendado... Ao mesmo tempo a platéia gritava Hey, ho, let´s go e agora com a compania do Sr. Kiko Zambianchi, Dinho presenteava o público com Ramones em I Wanna Be Sedad para logo depois improvisar à capela (imagina, Ramones visceralmente à capela!) Blitzkrieg Bop.

 

Começou Fátima e a platéia começou a cantar desesperadamente os versos sem parar, sem respirar. Dinho fez a banda parar de tocar como se pedisse silêncio para aquela oração, e querendo fazer parte da reza ele começou a cantar junto, mas desistiu logo, então esperou o pessoal terminar e disse: - “Porra, eu quero cantar também! Vamos começar tudo de novo!”. Ele simplesmente tomou conta do pedaço, um São Paulino de carteirinha era por alguns minutos o rei de Itaquera.

 

Antes de chamar a ajuda de Paulo Ricardo para a próxima canção, ele fez o seguinte comentário: - “... Quando agente envelhece, a tendência é agente ficar cada vez mais conservador, deixar de questionar, deixar de incomodar... o meu recado hoje é o seguinte – e tem a ver com essa próxima canção: envelheça fazendo as mesmas coisas que você sempre gostou de fazer quando jovem, pois aí você envelhecerá uma pessoa cada vez melhor”. Então começa os acordes inconfundíveis de Tempo Perdido.

 

 

Mas nem tudo foi tão azul e belo assim. Ao final de Tempo Perdido, Dinho levou a Carminha até a ponta do palco. Acho que ele iria cantar à capela o verso final de Tempo Perdido, como faz atualmente nos shows do Capital após essa canção, mas dessa vez com a Carminha. Mas aí alguém acertou em seu ombro uma garrafa de refrigerante de plástico vazia. Ele tentou identificar quem tinha feito aquilo e pediu pra que subisse ao palco, várias pessoas se ofereceram. De repente outra garrafa voou no palco. Ele pediu pra que quem tivesse feito aquilo que tacasse outra. O clima mudou completamente, as nuvens escureceram, da luz fez-se escuridão, ao menos no meu coração.

 

Há exatos dez anos eu presenciava em Santos à última apresentação da Legião Urbana. O clima era de festa e celebração, até que alguém jogou uma lata de refrigerante no palco. O Renato ficou enfurecido, fez discurso contra o público, retirou-se do palco, recusou-se a cantar, tentou castigar os fãs. Foi horrível. Foi triste. Nunca mais havia sentido aquela sensação de perda da alegria em um show. Aliás, fazia tempo que eu não ficava tão feliz num show. E de repente tudo aquilo de bom se foi em minutos. Tudo de belo que havia sido plantado em quatro ou cinco canções se perdeu por causa da estupidez de uns dois imbecis que deveriam estar no Pacaembu, e não ali.

 

Não tão extremo como o Renato, o Dinho apenas tentou explicar a importância daquela menina que estava ao seu lado e de que história ela fazia parte; pediu respeito, deu as costas, levantou os dedos médios para o alto, e foi embora.

 

 

continua...



Escrito por Jânio Dias às 23h07
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