Poeta do Bom Dia
Abaixo, poema escrito pelo amigo Paulo, ontem, 21/10/04. Sempre Poeta, às vezes Analista de Sistemas, o amigo Paulo também é um romântico. Sempre dá bom dia aos Amigos com alguma canção especial ou obra de sua própria autoria.
Se eu tivesse muita sorte na vida, eu seria músico e o teria como parceiro. Mas como sou apenas o que sou, acho que continuo tendo muita sorte, pois tenho entre os melhores amigos alguém como ele.
Escrito por Jânio Dias às 19h08
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Beijo Roubado
Não pode ser feliz
O pobre aprendiz
Que não pode se lembrar
De um beijo singular
Do beijo que foi escondido
Ou daquele que foi reprimido
O beijo que nos é negado
Ou o beijo que nos foi roubado
Não é feliz o menino
Que ainda não sentiu o carinho
Do beijo da linda menina
Que sonhou ter um dia
Mesmo se fosse por amizade
Ou simplesmente por vontade
Precisa sentir nos lábios
A doçura desses agrados
Mas nem sempre é possível
Apesar de tudo ser permitido
Pois quando o desejo vem
Nem sempre nos convém
Mesmo assim devemos beijar
Para podermos lembrar
Do sorriso que veio depois
E do suspiro que nasceu dos dois
Paulo Giovani
Escrito por Jânio Dias às 18h59
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Presente do Passado
"Vou me entorpecer bebendo vinho,
Eu sigo só, o meu caminho"
Wander Wildner em Bebendo Vinho
"Eu fico pelado no quarto vendo a sua foto
Parece uma grande bobagem
Mas é o que eu faço quando eu tô de porre,
E eu tô de porre"
Wander Wildner em Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo
E viva a música, e viva o sonho, e viva a amizade, e viva nossas meninas; e viva esse brinde e todos os momentos de alegria e nostalgia proporcionados pelo álcool. E viva Wander Wildner, simplesmente "o cara". E viva você, simplesmente "a mina". "A mina" por quem entôo essas bêbadas e cambaleantes palavras. Por quem escondo e exponho o regozijo e a lamúria desse sentir.
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Chegou em casa depois de mais um dia de trabalho sem graça. Cansado, jogou suas coisas que carrega na ida e volta da labuta diária no chão, e se esparramou na cama. Pensou em tomar um banho para relaxar, mas lembrou-se da geladeira e tomou meio copo de vinho barato. Esvaziou o copo e o encheu novamente. Deu duas grandes goladas e resolveu pegar a garrafa e ir para o quarto. Fechou a porta e logo estava esparramado outra vez na cama.
Esparramado na cama e lembrando dela. Lembrando daquela noite em que ele a pegou em casa e foram juntos numa espécie de festa junina rock´n roll em plena primavera, com direito a fogueira e várias barraquinhas de doces e bebidas que enfeitavam o lugar onde uma antiga banda dos anos 80 tocaria.
Era uma noite não muita fria, mas seca. O céu estava aberto, porém escuro. As pessoas usavam preto e blusa leve. Muitos passeavam pelo amplo lugar, sozinhos ou acompanhados. Muitos apenas conversavam parados em rodas. Bebiam e riam. Procuravam com os olhos conhecidos ou apenas repousavam o olhar sob outros meninos e meninas. Clima de festinha de interior.
Quando chegaram ao lugar, encontraram um conhecido com uma nova amiga. Ficaram os quatro conversando e logo decidiram comprar várias fichas para terem o que beber durante a noite enquanto esperavam o show. Compraram algumas garrafas de vinho barato, igual ao da geladeira da casa. Era fácil e divertido beber daquele jeito. Friozinho leve, vinho, som alto e ao vivo, um velho amigo e ela. Ela que pare ele sempre pareceu tão distante, a frente no tempo, inteligente demais, inatingível.
Quando com ela, e quase sempre sem palavras, ele sempre a olhava e voltava no tempo lembrando com orgulho de quando ela ficou presa no S.O.S Criança, ou de quando ela mostrou para a professora do segundo colegial a letra de Metal Contra as Nuvens, e a professora gostou tanto que colocou a letra para a sala tentar interpretá-la. Na época, ela achava que era sobre os senhores Feudais, isso o enchia de admiração. Que assim como ele, vestiu preto e foi às ruas gritando "Fora Collor". Ou quando citava "Múmias" para contrapor a idéia de que errar é humano. Pequenos, sutis e profundos acontecimentos que a faziam maior e muito melhor que ele. Uma montanha. Mas agora, tudo aquilo eram apenas lembranças. Agora ela estava ali, ao lado, deixando-o a pegar em casa, dividindo a mesma garrafa, olhares, e talvez intenções.
Escrito por Jânio Dias às 19h16
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Presente do Passado - parte final
Os quatro contavam histórias, comentavam aventuras desastrosas, momento político, pesquisas eleitorais, casamento, filhos; a vida e a falta de graça, a bebida e o impulso alimentador do desejo.
Já era tarde e o show principal ainda não tinha começado. Decidiram que tentariam enfrentar a multidão e chegar mais perto. Foram devagar abrindo espaço e entrando. E a cada lento passo dado, maior a temperatura ficava, e mais difícil ficava tentar chegar perto do palco e invadir a multidão. Ele na frente, ela atrás o seguia segurando sua mão, deixando-o a conduzir. Ele sentia-se feliz.
Chegaram ao limite da lei da física que não permite dois corpos no mesmo espaço. Dois corpos no mesmo espaço era o que ele mais queria que acontecesse. Queria ficar junto a ela e não mais se soltar. Queria ele descobrir como fazer para saber se ela pensava o mesmo.
Então começou o show. Logo de cara uma versão de The Clash e todos pulavam. Eles inverteram suas posições, ela na frente, ele atrás. Aproveitou e a segurou forte pela cintura para pularem juntos, para que não escapasse, como se fosse um momento raro e único. O calor era grande ali, ela já havia tirado o agasalho e amarrado na cintura. Com seus cabelos longos, ela começava a transpirar a ponto de molhar a camisa. Ele então, num gesto de carinho e cuidado, afastou seus cabelos descobrindo seu pescoço, e tentou seca-lo com a manga da blusa que ainda usava. Então aproximou sua boca e a passou levemente por cima de seu ombro. Ela virou devagar e seus olhos foram de encontro aos dele. Olharam-se por segundos como se tentassem ler o pensamento um do outro. Então ele fechou os olhos e a beijou. E logo o lugar ficou em silêncio. Parecia que alguém havia apertado em algum lugar um botão escrito "mute", onde a banda tocava empolgada e nada se ouvia, onde as pessoas cantavam e só se via os movimentos dos lábios sem ouvir nenhum som. Um beijo de segundos que parecia um presente vindo do passado. E ao abrir olhos, ela lhe sorriu, com ar inocentemente embriagado e feliz. E alguém apertou novamente em algum lugar o "mute", e podia-se novamente ouvir a banda e a multidão em todos os outros beijos.
Quando o show terminou eles estavam exaustos. Sentaram num degrau que dava acesso a uma barraquinha de bebida, esperavam que boa parte dos carros deixassem o estacionamento. Então ela falou olhando em direção ao palco onde havia ainda uma concentração de fãs: - "Não vou beber mais". E ele comentou: - "Se toda vez que eu bebesse eu pudesse ser feliz assim, eu sempre beberia". Ela desviou o olhar do palco e sorriu para ele, como se tivesse percebido ali um raro depoimento de felicidade.
E quando estavam no carro, já de dia, sol nascendo, voltando para casa ouvindo Singles do Suede, alguém bateu na porta dizendo: - "abre aí ". Ele levantou sonolento, tropeçou no copo de vinho que ainda tinha um pouco dentro molhando o chão, e abriu a porta. Era o irmão dele que acabara de chegar da escola querendo entrar no quarto. Depois de abrir a porta para o irmão, ele entrou no banheiro, tirou a roupa, ligou o chuveiro e entrou debaixo d’água ainda com a sensação de que tinha tido um sonho bom. Um sonho bom onde bebia, recebia um presente do passado, e era feliz.
Jânio Dias
Escrito por Jânio Dias às 19h07
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