Vestígios do Dia



BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, English, Arte e cultura, Cinema e vídeo, música e livros
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GIGANTE

"Why do you think I let you get away

With the things you say to me

Could it be I like you

It´s so shameful of me / I like you "

Morrissey em " I Like You"

 

Então, preguiça danada... desânimo, fraqueza física... que horas são? Que dia é hoje? Sobre o que quero escrever mesmo? Ai, acho que não estou afim hoje também.

 

Bom, foi sexta-feira passada, dia 24 de setembro, quando chegamos lá. Lá estávamos em Mogi das Cruzes no ginásio municipal para presenciar ao show Gigante do velho/novo Capital Inicial. Estavam lá meu irmão, irmã e namorado, e eu.

Demoramos prá entrar no ginásio. Ficamos lá fora bebendo e falando bobagens, apostando se alguém mexeria ou não no carro que ficou estacionado na rua, se meu irmão teria a manha de tirar a camiseta dele e entregar para o Dinho, se o namorado da minha irmã teria a moral de gritar lindo, tesão e não sei mais o quê.

Quando decidimos entrar, já era quase o horário do show, perto de 00h15. Ficamos lá na arquibancada, num lugar que eu considerei excelente, pois dava prá ver o palco inteiro, toda a galera da pista, e ao redor de toda a arquibancada. A pista tava lotada, e quando as luzes se apagaram e o veterano roadie Boréa anunciou o início da apresentação, o meu irmão pulou para baixo e foi se divertir na pista tomada de gente.

Eu fiquei no mesmo lugar, numa posição mista de espectador, observador e admirador. As quatro primeiras músicas eram do disco novo. Mesmo assim boa parte da galera sabia cantar. E mesmo assim o Dinho parecia preocupado, tentando agitar as pessoas, sempre conversando, dando conselhos e pedindo prá pular e balançar os braços. Era sempre obedecido imediatamente. E junto com a galera dançando também dançava um boneco inflável enorme, mascote criado para essa tour. Coisa de banda gigante.

E apesar da preocupação desnecessária de Dinho, as coisas iam muito bem. Até que ele diz que a próxima canção é sobre um monte de coisas que eu não lembro, e principalmente sobre esperança, e começa os primeiros acordes do clássico do Sr. Kiko Zambianchi, Primeiros Erros. E o ginásio vira uma voz só. Emocionante. E no final da canção, o Dinho vai até o fundo e traz pelo braço até a beirada do palco fazendo um longo e nostálgico solo em seu violão, Fred Nascimento.

Mas o Dinho não parecia satisfeito, e depois de dar uma breve versão sobre o que talvez seja "Olhos Vermelhos" e levar muitas meninas às lágrimas, ele pergunta se alguém tinha esqueiro para acender naquela próxima canção ou celular para ligar e deixar levantados no alto. Nem precisava ter ido tão longe ou subestimado o público de Mogi, quando ele ainda falava do esqueiro, a galera em volta já começava a empunhar seus celulares. De repente há um mar de luzes azuis na pista e envolta de mim. Algo tão contagiante que o próprio Dinho se encarregou de pedir uma camera para a produção e filmar aquela cena. E aquela linda cena não podia ser mais apropriada do que durante "Fogo".

Mas outra linda e marcante cena ainda estava por vir. Antes de começar os primeiros acordes ele falou mais ou menos assim: "Essa aqui é uma canção da mais importante banda da história do rock nacional, falô?, Legião Urbana, falô?, e ela vai assim: ..." E aí começa os inconfundíveis acordes de Tempo Perdido e o lugar parecia querer vir ao chão. E quando a banda termina, ele segue sozinho e arrasta umas três mil vozes consigo. "Não tenho medo de escuro / mas deixe as luzes acesas / agora / O que foi escondido é o que se escondeu... Somos tão jovens / tão jovens / tão jovens..." Pois é, tão jovens... nem precisava ter mais nada. Nem precisava ainda de Fátima e Veraneio, ele nem precisava ser tão comunicativo, nem precisava se preocupar com o cara sendo esmagado na grade, o carro nem precisaria estar ainda lá fora, a noite já tinha válido a pena.  



Escrito por Jânio Dias às 19h40
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Pois é, mas ainda tinha mais coisas legais. Ainda veio Fátima e Veraneio Vascaína, "um pouco de punk rock prá vocês" ele disse antes, e um buraco se fez no meio da pista. E lembranças recentes vieram à mente. Voltei ao período do espetáculo R-Evolução Urbana, foi impossível não lembrar do Haley e consequentemente de toda galera da peça e dos amigos berrando juntos: "veraneio-vascaína-vem-dobrando-a-esquina".

E cena marcante é com o Dinho mesmo. Perto do fim ele diz: "aqui nessa noite têm três mil pessoas, então eu quero ver seis mil braços no alto assim, óh..." E todo mundo fez igualzinho durante a canção inteira, e eu que estava ali no alto pude ser agraciado com a imagem de um mar de braços desordenados indo e vindo. Lindo. Parece piegas, e é, mas o fato é que ali estava o Capital Inicial, uma das bandas de Brasília, a metade do Aborto Elétrico, uma banda do cenário pop-rock, não um KLB que faz cover de Primeiros Erros e diz que gosta muito de rock, "principalmente da música do Capital" que eles cantam no show. Não era a Ivete Sangalo e sua música baiana que apenas faz as pessoas dançarem e se divertirem. Ainda há o discurso atual do Dinho e a sua maneira pop-rock de tocar na juventude, como no momento em que ele pergunta quem ali ainda mora com os pais e todos levantam a mão e ele diz: "Não, não é possível, vocês estão de sacanagem comigo, todo mundo? Tá, eu vou fazer essa pergunta de forma diferente: quem aqui gostaria de morar sozinho?". E todo mundo grita e levanta o braço simultaneamente, e aí ele diz que num belo dia a menina daquela canção resolveu ir morar sozinha, e começa Natasha. E o delírio impera novamente. Viu, coisas que só o rock pode oferecer!

E no bis Belos e Malditos (só voz e violão pelo Dinho), Independência e Rock´n Roll All Nigth como complemento da mensagem anterior. E de repente o Dinho se agacha até a grade e pega uma camiseta preta com alguém que lhe estica o braço lá de baixo e abre prá quase todo mundo ver o que estava escrito: R-Evolução Urbana – a lenda do rock. Era a camiseta do meu irmão.

 

 

Para mim foi um show diferente de todos aqueles que eu já havia presenciado do Capital. Com exceção do primeiro show oficial do Acústico no Olímpia que foi de mesinha, e por isso não houve a preocupação de chegar cedo para ficar próximo à metade do que um dia foi o histórico e lendário Aborto Elétrico, em nenhum momento houve da minha parte aquela normal e já acostumada ansiedade de estar lá, de chegar horas antes, de encarar a fila enorme durante o mega sucesso da fase acústica, de separar um dinheirinho para a camiseta, nada. Nada de empurra-empurra, nada de "esse pedaço da grade é meu", nada de provocar a garota de 15 anos ao lado que não sabia cantar Kamikaze e de que disco pertencia. Eu nem mesmo tenho o último disco, apesar de ter todos os outros. Então, por que eu estava lá?

Estava lá porque mesmo sem perceber no Capital atual o valor e importância de outrora, ainda há ali coisas inesquecíveis. Há um baterista que toca com a mesma bateria de quando tinha seus 18 anos, a mesma em que o Bonfá aprendeu a tocar; há um baixista co-autor de Fátima e Veraneio Vascaína, ao lado do imortal Renato Russo; há ali o vocalista mais gente fina da história do rock nacional, e fã número 1 da Legião Urbana, o cara que um dia (assim como o compositor Salieri fez em relação a Mozart) questionou Deus do porquê ele não ser tão bom e talentoso quanto "aquele cara" (Renato Russo), e depois (assim como também fez Salieri), admitir que gênios, são só uma meia dúzia pelo mundo todo.

 

Estava lá por causa da sua história, por causa dos seus dois primeiros e fundamentais discos, por causa de Atrás dos Olhos, do Fê, do Flávio, do Dinho. E de toda nostalgia, alegria e emoção que isso tudo ainda desperta em mim. Estava lá porque, apesar de tudo, assim como eu gosto de você, eu gosto da banda.

 

Jânio Dias



Escrito por Jânio Dias às 19h31
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