Lembro que ela era linda.
Que o coração disparava quando a via.
Que seu sorriso era largo.
Que seu olhar era intenso.
Que seus passos eram mansos.
Que seus cabelos eram vários.
Que tinha ar inocente.
Que era decidida.
Que tinha opiniões.
Que me seduziu.
Que a seduzi.
Que me levou ao cinema.
Um filme que eu já tinha visto.
Um filme inédito.
Que andamos de carro.
Que nos perdemos no caminho.
Que andamos de ônibus.
Que pegamos o primeiro ônibus às quatro da manhã.
Que frequentava a igreja.
Que deixou de frequentar a igreja.
Que escrevia prá mim.
Que eu escrevia prá ela.
Que ela me ligava.
Que ela me inspirava.
Que ela me beijou.
Que eu a beijei.
Que tentei tirar sua roupa.
Que ela tirou a minha roupa.
Que fizemos amor.
Que eu a imaginei fazendo amor.
Que estávamos num show.
Que a poupei da verdade.
Que voltávamos prá casa juntos.
Que deitamos num colchão no chão.
Que nessa noite só conversamos.
Que fui embora antes do sol nascer.
Que um dia fomos a uma danceteria.
Que ela me atacou na porta do banheiro.
Que queria ir molhar os pés na praia.
Que tomamos café da manhã.
Que eu a levei embora.
Que ela me deixou na rodoviária.
Que ela gostava de Manuel Bandeira e da banda do Circo Garcia.
Que nem tudo tinha sentido, nem tudo era poesia.
Que tudo era assim, sem rima, sem ordem, sem nada.
Sem construção, sem preocupação,
Que todo final de frase seria mais fácil
Se terminasse sempre em "ão".
Que todo desejo cristalizado
se mantém vivo na memória
intacto enquanto não realizado
Imenso enquanto houver história.
Que ela se foi, numa manhã de glória.
Jânio Dias