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Intacta Retina
Olá, Pessoal!
Esse negócio da peça (pelo menos em mim) realmente reacendeu um foguinho que tava apagado há bastante tempo. Entre os fatos já concretos de rever pessoas que há muito não se viam, de voltar a ouvir Legião, de sentir prazer em mexer nas coisas relacionadas a isso, achei um texto escrito há exatos dez anos atrás sobre o show do ginásio do Ibirapuera, onde conheci o Marcelo e o Adriano. E pasmem, eu já gostava da Eneida!!!! E pelo texto, eu ainda não à conhecia!!!!
É curioso também a passagem "medieval" presente no texto, com cavaleiros, princesas e espadas, assim como há na peça hoje!!!
Às vezes o texto é exageradamente piegas, em outras apenas lisérgico. Bom, foi escrito há dez anos... a intenção de traze-lo à tona é apenas uma singela tentativa de trazer para quem viveu a tour do Descobrimento boas imagens e lembranças. Para quem não teve tanta sorte, espero que sirva para reforçar a lenda e magia em torno desse tema.
É difícil lembrar exatamente como as coisas aconteceram naquele ano e período, mas é muito saboroso saber que tudo valeu a pena!
Beijos e beijos...
Jânio Dias
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INTACTA RETINA
16 de junho, 94. Finalmente havia chegado o grande dia. Dia de sol no início do inverno em são Paulo. Dia pra ficar na memória. Inverno, sol, São Paulo. Pequenos detalhes que passaram despercebidos naquele dia. Na cidade, o assunto entre os teens não era a copa do mundo que se iniciava no dia seguinte. Não era a discutível seleção de nosso país. Era “eles”, “a banda”, Legião Urbana. Estavam de volta aos corações dos paulistas.
16 de junho, 94. Não era fácil de acreditar. “Eles estão na cidade”, “há quatro anos eles não tocam na capital”, “não dá para acreditar”. Não dava mesmo. Tanta espera, tanta expectativa, quanta ansiedade...
A maioria dos fãns não os viam desde 90. Outros, mais felizes, desde 92. Mas também havia aqueles que nunca tinham sido premiados com uma apresentação. O clima de celebração tomava conta do ginásio do Ibirapuera. Contagiava as pessoas que tanto tinham esperado. Tudo estava armado, tudo estava preparado para o rito. No caso da Legião, o rito começa na fila de espera. É o rito de iniciação. O de fazer amigos.
Calouros e veteranos se misturavam. Veteranos contavam histórias, calouros ouviam. Calouros perguntavam, veteranos respondiam. Muitos cantavam, todos se emocionavam. A iniciação do rito continuava. As pessoas iam se tornando amigas.
16 de junho, 94. Aproximadamente, 21h35. Chegou o grande momento. Corações acelerados. Sangue bombeado em maior quantidade para o cérebro. As luzes se apagam. Entraram no palco. Gritos, dúvidas, verdade. Legião Urbana. Tudo escuro... “Ei menino branco...” As estruturas do Ibirapuera balançam, o ginásio se move; estamos flutuando, navegando nos extremos das palavras e imagens. As luzes vão se revezando: azul, verde, amarelo... vão se misturando, e aos poucos, a luz própria de Renato Russo e companhia ofusca a artificial.
Somos milhares de jovens e vozes que vibram, cantam, deliram; e sorrindo felizes, choram.
Escrito por Jânio Dias às 08h53
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Intacta Retina (continuação...)
O ginásio pára de flutuar, está de volta ao chão. Silêncio. Renato está falando. Todos ouvem atentamente. Pausa. Tudo balança novamente. Música pesada e rápida, suor que pinga no chão, contente – doce suor. As coisas se acalmam. É hora de fazer uma viagem. Está tocando ‘Metal Contra as Nuvens’; estamos na era medieval...
Encontro o cavaleiro Marcelo, com uma nova armadura. Está assim, como eu, à procura de sua cela e espada, seu castelo e sua princesa. Nosso castelo, encontramos. É o ginásio do Ibirapuera. Nossa princesa? Não sabemos. Por um instante, quase acreditei que a minha fosse Alessandra. Quase acreditei. Quase acreditei. Nossa espada, é a palavra e o canto.
A viagem está terminando. Estamos quase de volta. Antes, paramos num lugar cheio de luz, com pessoas felizes, se amando intensamente. Encontramos um livro empoeirado, sentimos um vento rápido, deixando o livro tão iluminado quanto o lugar. Suas folhas viram com velocidade, e param. Uma voz docemente pura e agradável saia de lá. Acho que era a Eneida, mas não tenho certeza. Ainda não a conhecia. E ela dizia: ‘Suas estórias não estarão pelo avesso assim, sem final feliz. Terão coisas bonitas pra contar. E até lá, vamos viver. Temos muito ainda por fazer. Não olhem pra trás. Estamos apenas começando...’ Lindo. Valeu Eneida, garota onisciente.
Acordamos. Fabuloso, não há suor. Apenas algumas lágrimas, e que comprovam que a felicidade existe. Que há pessoas que se preocupam, com as outras. Que tudo que aconteceu até agora, é só o início. Há como se chegar perto da sabedoria infinita.
Ficamos acordados por pouco tempo. Novas viagens indescritíveis se repetiram. Voltamos ao passado, vivíamos nosso presente, e enxergávamos o futuro.
Escrito por Jânio Dias às 08h52
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Intacta Retina (the end)
Pausa. Houve uma pausa. O Renato está falando novamente. Olho para os lados e vejo semblantes de intacta retina. Todos parecem estar hipnotizados. Alguns passam a mão no cabelo, enxugam o suor de suas testas, sempre voltados para o centro daquela celebração, daquele rito mágico.
Os corações batem num mesmo ritmo. Todos respiram, transpiram Legião. Alessandra tem os olhos dilatados de comoção. Marcelo, o cavaleiro, pula, vibra; dá socos, agarra o ar, segura algo imaginário.
Tudo pára. Tudo parece voltar ao começo. As redomas imponentes do Ibirapuera continuam lá, soberanas, como um círculo místico, construído apenas para aquele dia, aquelas pessoas; aquele culto transcendental.
A Legião se despede. Todos se assustam. Saem do palco. Gritos, pedidos, aclamações. O público se curva. “Eles estão de volta”. Renato surpreende. Toca ‘pais e filhos’. Alessandra não se segura, chora lindamente. Marcelo, é pura definição de delírio e prazer. As pessoas cantam, lágrimas caem, os corações se tornam pequenos. Mesmo quem nunca consegue encarar pais e filhos de frente, se rende, se entrega.
Pertos do fim, muitos deles próximos de Deus, a Legião toca ‘Será’, seu cartão de visita se transforma em entrada para o dia 17. Flores são jogadas ao público. Uma versão de Ave-Maria é o fundo musical de uma imagem única: olhos de Alessandra, áurea do Marcelo, semblantes de intacta retina – para onde se navega nos extremos das palavras e imagens.
Somos milhares de jovens e sonhos, que juntos, depois de tanto tempo, começam a viver um novo descobrimento.
O rito terminou, temporariamente. Amanhã tem mais. Mais histórias, choros, delírios. Legião Urbana e novos amigos.
Jânio B.
Inverno de 1994.
Escrito por Jânio Dias às 08h51
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Brasília (curta-metragem)
Mensagem escrita em 10/05/04, sobre a viagem para Brasília para ver a exposição Renato Manfredini Jr. no Centro Cultural Banco do Brasil. Texto rápido e sem muitos detalhes, adjetivos, ou a transposição da real emoção de ter estado lá.
Na verdade, ter estado em contato com tudo aquilo, e com tudo o que aquilo representa, foi triste. Emocionantemente triste. Só quem esteve lá para saber do que estou falando. E eu não quis passar isso para o texto.
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Olá!
Como estão vocês?!!
Estou escrevendo brevemente prá contar que estive em Brasília nesse fim-de-semana. Fui ver a exposição do Renato com uns amigos, ou melhor, duas super-amigas e uma nova amiga. O pessoal original que ia teve problemas como dinheiro, data da viagem, autorização da esposa prá ir... entre outros casos. Um só teria dinheiro na sexta, dia da viagem; outro tá desempregado desde dezembro do ano passado, uma super-amiga só viajaria com o pai, mas ele não tá legal; um outro rapaz só poderia viajar com a esposa, mas aí o custo era muito alto... Então, apenas um terço das pessoas com intenção de ir viajaram. Saímos daqui de São Paulo na sexta-feira às 18h15 e chegamos lá às 09h15 a.m. Da rodoviária que descemos, tivemos que pegar um outro ônibus até um terminal de ônibus que fica próximo ao Congresso Nacional. Na dúvida entre pegar o ônibus do Banco do Brasil (que não sabíamos ao certo onde passava, e que ninguém da cidade sabia que existia) e pegar um táxi, optamos pelo táxi até o Centro Cultural Banco do Brasil.
Chegando no local, uma decepção: não poderíamos tirar fotos de dentro da exposição. Fui todo equipado, comprei dois filmes, peguei emprestada a super-máquina do amigo Paulo... Mas tudo bem, tudo bem, o contato com aquelas coisas tão pessoais era mais importante. A exposição começa pelo nascimento do Renato, e fatos históricos daquela época. Tem desde o cartão da maternidade até redações escolares, impecavelmente bem escritas e acentuadas para uma criança! Passando pelo aborto elétrico, a fase do trovador solitário, as várias formações de guitarristas da Legião até o primeiro material demo para a gravadora emi. Nas paredes há disckman's com leituras de redações do Renato como a do vestibular, ou um show do aborto elétrico, ou entrevista com um determinado jornalista de Brasília, até canções da própria banda e canções que o Renato gostava de ouvir em casa ou que o influenciaram. Há coisas incríveis como a relação de canções que seria o álbum dois, que seria duplo e se chamaria Mitologia e Intuição, ou a carta manuscrita por Renato enviada a gravadora dizendo quais canções deveriam ser trabalhadas no rádio e por quê; ou as letras originais e embriões que formariam obras primas como Eduardo e Mônica, Há Tempos e Metal contra as Nuvens.
Prá mim, a parte mais marcante é onde há exemplos de como era complexa a forma de criação das letras. Há muitos rascunhos originais de idéias de canções que formariam três ou quatro outras canções no futuro. O maior exemplo é Metal, que têm umas dez folhas rascunhadas de idéias originais. Essa parte me tocou muito, pois você percebe que o gênio era mais transpiração do que genialidade, sem deixar de ser genial. Confuso? Só vendo prá se tentar entender!
Há uma parte só com os discos de platinas e diamantes, uma com as últimas roupas e botas usadas em shows, uma com camisetas que ele adorava (uma é do pato fu), muitos desenhos feitos pelo próprio Renato, o acervo de livros e cd's e vinis... um curta metragem em inglês onde o Renato faz o papel de um defunto que ressuscita... Uma viagem nas coisas pessoais e especiais do Mito!
Uma viagem! E muita emoção!
Beijos,
Jânio
PS.: como é um breve relato, a viagem para Brasília que foi maior que isso, com mais curiosidades que isso, com mais emoções que isso, ficou com cara de curta-metragem!!!
Escrito por Jânio Dias às 14h13
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