Vestígios do Dia



BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, English, Arte e cultura, Cinema e vídeo, música e livros
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O ASSASSINATO DOS SONHOS

Imagem: Yvonne Steinmann 

 

"E ao chegar lá fora
Direi que fui embora
E que o mundo já pode se acabar
Pois tudo mais que existe
Só faz lembrar que o triste
Está em todo lugar"

Pato Fu, em Agridoce

 

Olá!

Quanto tempo, não?!

O que você tem feito?

O que a gente combinou quando nos vimos pela última vez mesmo?

Quantos sonhos você assassinou desde a última vez que nos vimos?

Sabe, eu tenho problema com sonhos, nunca me lembro deles quando acordo. Acho que mato os sonhos. Chega uma idade em que não lembramos mais dos sonhos, mas os sonhos não esquecem da gente... e aquela pessoa que matamos nos sonhos também não esquece.

Esse blog estava dormindo desde fim de março passado, e desde então assassinou alguns sonhos, como o próprio sonho de continuar existindo nesse espaço.

Ele sou eu e vice-versa. O mais otimista poderá dizer que ele não morreu, pois enquanto ele estiver aqui, com uma imagem sorrindo, com uma epígrafe cantando, com palavras tomando as mais diversas formas, ele continuará existindo. Logo, com ajuda do raciocínio do amigo otimista, ele está apenas hibernando.

Ok, tudo bem. Mas o fato é que desisti de despertá-lo. Mas como para viver é preciso existir, ele vai continuar dormindo aqui para acordar (sonhar, talvez?) em outro lugar.

A partir de hoje você poderá me encontrar aqui: http://www.janiodias.blogspot.com/

Não demore para me visitar, quero criar e dividir outros sonhos com você; pois assassinar, acabei de fazer.

Beijo de sonho,

Jânio Dias



Escrito por Jânio Dias às 22h38
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BINHO

  imagem by: Piko 

 

“De onde vem o jeito tão sem defeito

Que esse rapaz consegue fingir?

Olha esse sorriso tão indeciso

Tá se exibindo pra solidão”

 

Los Hermanos, em De Onde Vem a Calma

  

“Eu queria tanto encontrar

Uma pessoa como eu

A quem eu possa confessar

Alguma coisa sobre mim...”

 

Pato Fu, em EU

 

O Binho é o melhor amigo do meu irmão. Ambos possuem o mesmo nome (Fábio) e devem possuir a mesma idade, logo, uma distância considerável em relação a minha. Foram muitos anos o vendo em casa e apenas cumprimentos rápidos. Acho que ele não gostava de mim, ou de alguma forma, tinha medo de mim, assim como alguns outros amigos próximos do meu irmão.

Um dia, num domingo à noite, havia vários deles na sala ouvindo Sepultura num volume muito alto. Porém, os twiters das caixas de som estavam estourados, o que provocava um zumbido abafado e desqualificável aos ouvidos. Comentei com eles de forma um pouco mais incisiva o crime sonoro que eles estavam cometendo. Todos se retiraram da sala. A bronca não era por estarem ouvindo have metal num domingo à noite, mas sim por estarem perdendo a "essência" da música com aquelas caixas de som. Para mim era um orgulho encontrá-los reunidos ouvindo rock, mesmo que fosse Sepultura. Acho que a imagem de irmão mais velho os intimidava.

Os anos se passaram e como sempre acontece, muitos dos amigos de ontem não estarão presentes amanhã. Com exceção do Binho. Ele é cada vez mais integrante da família.

O tempo vem passando de forma curiosa para ele. Já gostou (diz que ainda gosta, mas não o toca mais como antes) de neo metal, emo, hardcore... Já apareceu em casa com um cd de pérolas clássicas sertanejas... Já teve a fase Los Hermanos safra álbum 4 e agora vive um curto momento de equilíbrio ao lado de Moptop. Não gostava dos livros clássicos da escola, mas se amarrou recentemente em Verônica Decidi Morrer; daí passou a ler tudo que fosse possível do Paulo Coelho. Ele acha que Munique do Spielberg é melhor que Crash - no Limite. Sua relação é muito mais intensa e profunda com o pai do que com a mãe. Um copo de vodka sabor laranja com guaraná, e até a minha namorada recebe galanteios. Já me disse que não gosta de crianças, mas me pediu recentemente uma foto tirada com a minha sobrinha de um ano. Semana passada, em tom de confissão, revelou que se emocionou num episódio de desenho japonês. Temos conversado muito ultimamente, e até recebo recados perguntando se estarei em casa no fim de semana para juntar o pessoal e tomarmos uma. Mas o mais curioso foi ser surpreendido esses dias com um belo e sensível poema de sua autoria sobre ele mesmo.

Gostei de ver que o melhor amigo do meu irmão caçula, é o melhor amigo que ele poderia ter.

Jânio Dias



Escrito por Jânio Dias às 09h54
[]




EU

de Fábio Oliveira Lopes (Binho)

 

Às vezes posso me achar um ninguém

Mas como assim um ninguém?

Sou "alguém",

Alguém que nasceu em 86

Alguém que tem a quem amar.

 

Sou assim...

Deixo a barba crescer um pouco,

Pois ela gosta.

Não gosto de usar chinelos;

Não andava sem camisa.

 

Acho-me magro, mas temo engordar,

Ouço músicas que meus amigos gostam,

E acabo gostando também;

Não sou sentimental, mas às vezes acordo triste.

Tenho medo do futuro.

 

Mesclo momentos de alegria com meus amigos,

De tédio sozinho,

E de amor com uma só pessoa;

Fujo daquilo que não suporto

Não busco o que quero.

 

Não conheço a formula da felicidade

Mas não sou triste.

Ninguém me pergunta como foi meu dia,

Por isso, talvez, eu nunca pergunto a ninguém;

Não sei ser social, apesar de tentar.

 

Passo despercebido entre estranhos

E assim quero,

Passo despercebido entre meus amigos,

Isso não me agrada,

Mas é só às vezes, e por minha culpa.

 

Outro alguém corrigiu alguns de meus defeitos

E sofreu por outros incorrigíveis, mas controláveis:

Quero que sejamos felizes, todos juntos,

Amigos, família, amores.

 

Quero crescer, e ser alguém melhor,

Pois só "alguém", já sou.

 

13/03/2007 – meus pensamentos



Escrito por Jânio Dias às 09h54
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LETRA E MÚSICA

Lute Player, de Orazio Gentileschi, 1626. 

 

 

“Que a minha loucura seja perdoada

pois metade de mim é amor

e a outra metade

também”

Metade, poema de Oswaldo Montenegro.

 

Ela disse que todo relacionamento começa com 50% de chances. As coisas podem pender para um lado ou outro. É possível que se siga uma estrada onde a terra seja habitável e dê frutos, ou ficar a seguir um caminho de onde nada nascerá. É possível que a paixão surja repentinamente em meio a fumaça turva do acaso e que brilhe como composição escrita ou instrumental, que toca antes os ouvidos e a pele, depois o coração. Ela acredita que o amor pode começar numa meia canção: às vezes na letra, outras na música.

Quando nossos olhos se viram pela primeira vez, os meus recitaram um trecho da letra de uma canção para os dela; os dela entoaram uma melodia para se encostar aos meus. Nossos olhos ao se encontrarem pela primeira vez, sabiam que existiria mais que 50% de chances deles se apaixonarem. Uma paixão nasce da metade do desejo do outro.

Ela gosta mais de falar e eu de ouvir. Às vezes ela se irrita por falar demais, as vezes eu me incomodo por não ter tanto a dizer. Eu quero ser um poço sem fundo para suas memórias, mas sou apenas metade olfato para seus conceitos. Eu não falo tanto porque gosto de cheirar suas lembranças.

Quando caminhamos lado a lado na rua, eu procuro ficar do lado de fora da calçada. Quero protegê-la dos carros e das poças, dos andantes e dos olhares que não tenho controle. Eu tento ser metade da calçada para seus pés. Eu sou metade tapete suspenso que ela pisa para eu sentir seus passos; para disfarçar de chão o piso que ela não sabe que existe.

Se tivermos que sair na garoa, dôo minha metade do guarda-chuva para sua cabeça. A chuva miúda me dá a sensação de fazer algo por ela. A persistência das gotas reflete minha paciência em tê-la para mim.

Ela me espera no metrô perto das cadeiras. Procuro descer no sentido oposto apenas para ter sua imagem parada: ela sentada me esperando. Desejo não chegar, desejo que ela não me veja para que a imagem não se desfaça. Desejo que nosso encontro seja metade que se contempla. Os passos que nos separam é o silêncio da falta de ar ao encontrá-la.

Às vezes a beijo com pressa e fúria, outras vezes permito a lentidão suave do ar raso de sua boca invadir a minha. Eu a beijo com ímpetos de destruição. Eu a beijo como dança lenta que percorre a noite. Eu a beijo metade loucura, metade amor em câmera lenta. Eu a beijo com vontade de não parar mais. Ela me beija como eu a beijo: com sons dilacerantes e entrega irrevogável.

Eu tento ser bom para ela e não falar em futuro, promessas de casamento ou eternidade antecipada. Meus dias são seus cabelos e nuca, sorrisos e olhares, mãos e boca, pescoço e seios, ventre e cochas, seus pés e a cama. Tudo que posso tocar instantaneamente, tudo com que posso brincar perdidamente. Meu abrigo é seu abraço, meu esconderijo sua alegria; meu conforto é tê-la por perto, meu descanso é estar com ela. Sou metade refém de sua morada.

Eu sou sempre metade do que não serei; ela será sempre o complemento do que não posso ser.

Se eu sou o pôr-do-sol, ela é a manta alaranjada que contorna as nuvens no céu. Se ela é arco-íris, eu sou os sete traços no alto esperando por ela para ser preenchido com suas cores.

Eu sou letra, ela a música. Às vezes eu sou metade melodia, outras vezes, rascunhos da composição.

Se ela é o canto, eu sou o movimento dos lábios.

Raro é o amor que se torna uma perfeita canção.

Jânio Dias



Escrito por Jânio Dias às 12h51
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O LABIRINTO DO FAUNO

Imagem: cena filme  

 

 

“And if my parents are crying,

Then I'll dig a tunnel from my window to yours

Yeah, a tunnel from my window to yours”

 

Arcade Fire em, Neighborhood #1 (Tunnels)

 

Quando menino pequeno, imaginava que quando crescesse seria muitas coisas. Lembro que no meu aniversário de sete ou de oito anos, eu acordei meus pais para que me dessem feliz aniversário, e enquanto brincava de cavalinho no colo de meu pai, minha mãe fazia contas prevendo o que eu seria em determinada idade. Como havia entrado na primeira série apenas com seis anos e meio, minha mãe me ajudava na fantasia de que aos 17 faria medicina, aos 22 passaria pelo exército por causa do meu padrinho, depois estudaria para ser advogado, e se quisesse, poderia até trabalhar na televisão, pois eu também poderia ser um ator. Mas antes, eu tinha que ser um doutor. A imaginação da minha mãe queria que eu fosse alguém.

Como fui filho único até os nove anos de idade, era comum eu brincar comigo mesmo e com minha imaginação. Um dia olhei para o céu azul e de nuvens brancas como algodão doce que formavam carneirinhos ou rostos com barba no alto, e gritei para dentro de casa: "Mãe, você disse que Deus mora no céu... tô vendo Deus lá em cima desenhando..."  Minha mãe não alimentava fantasias que julgava impossíveis de acontecer: "Pára com isso filho, mentir é coisa muito feia e Deus não gosta..." "É verdade...", eu insistia. No fundo, ver Deus era fazer parte de tudo que existia.

Adorava fazer de conta que eu era o Ultraman. Sabia tudo de karatê e lutava contra monstros verdes que quando estavam quase me vencendo, eu reagia velozmente e os eliminava com meus golpes e raios. Assistia ao Jonny Quest e repassava o episódio inteiro na minha cabeça; porém, eu era o Jonny. Pegava fita isolante e passava em volta dos pulsos como se fossem braceletes do Space Ghost, pois assim, eu seria ele. Prendia uma toalha grande nas costas e levantava vôo; eu era o Superman. Meus medos eram transformados em coragem e determinação quando eu virava um deles. Minha imaginação brincava de lutar contra o mal.

Um dia, meu time de futebol perdeu o campeonato estadual em casa para um time do interior, por 2 x 1. Foram inúmeras as chances de gol. Um contra-ataque perto do fim do jogo e eles fizeram o segundo gol. Dias depois ainda revendo os lances do jogo na memória, da primeira final que eu via meu time participar, triste e ainda não convencido da derrota, fechei os olhos e entrei em campo naquela partida. Faltava pouco para acabar o jogo, meu time havia perdido a bola no meio de campo, corri em direção ao homem de meio-campo do time adversário, roubei-lhe a bola sem falta, driblei um e toquei de lado para um companheiro e corri em diagonal, recebi a bola na frente, corri com a bola colada em meus pés, driblei o primeiro, o segundo, e já dentro da grande área, toquei rasteirinho na saída do goleiro. Golaço! Empatamos o jogo. Faltavam poucos segundos para os quarenta e cinco minutos restantes, quando num chute de fora da área do lateral Jorge Mendonça a bola bateu na trave esquerda e rebateu na minha direção, dominei no peito e dei um chapéu no adversário, sem deixar a bola beijar a grama, toquei nela com o lado de fora do pé direito, deixando o outro defensor no chão, e chutei cruzado fora do alcance das mãos do goleiro, no alto, entre a forquilha. Golaço! O placar agora era 3 x 2 ao nosso favor, e éramos campeões. Depois de tantos anos na fila, eu que acabara de me apaixonar por aquele time, o via campeão. Minha alma era campeã. Minha imaginação havia salvado meu amor iniciante pelo futebol.

Já menino grande, por mais que eu tentasse, por mais que eu me concentrasse, minha imaginação há muito não me socorria na vida real. A infância que acabou prematura, o trabalho que começou cedo, os pais que se desfizeram no primeiro tempo da infância; o time do coração que demorou para ser campeão, a menina mais bonita que sumiu da minha vida, os amigos que ficaram pelo caminho; os irmãos mais novos para cuidar, o poeta que se foi cedo demais, o dinheiro ralo para estudar e sobreviver; o trabalho sem graça, os shows que não foram vividos, a luta diária pelo sonho e a melodia. Minha imaginação me abandonou para ser minha amiga apenas agora, já garoto.

Um garoto que não cresceu muito, que não virou ninguém em especial como imaginado, que nunca foi além em nada que dele se esperasse, mas que não cansa da tentativa de ainda ser salvo e virar algo querido no mundo em que o esperam. Um garoto que procura celebrar os amigos mais queridos sempre que pode, sempre que assim o sente. Que vive cada novo amor com a mesma impossibilidade e imprevisibilidade que a vida sempre foi: um sonho delirante sem o controle das mãos na imaginação.

Eu vivo a vida longe da realidade hoje, para poder amá-la em segurança amanhã.

Jânio Dias



Escrito por Jânio Dias às 21h39
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DIAS ALCINIANOS

 

The mulberry tree, de Vincent Van Gogh, 1889 

 

 

“As vezes as coisas são difíceis,

minha amiga,

mas você sabe enfrentar

a beleza dessa vida”

 

Legião Urbana em, Leila

 

 

 

Cessam-se as chuvas, o sol sorri. Os lares se recompõem, a vida retoma o percurso natural dos dias.

 

Dias que deveriam ser letras e fonemas de amor e alegria. Canções que diluíssem os efeitos dilacerantes da busca incessante e turbulenta pela felicidade. Uma majestosa e radiante celebração da vida, das pessoas e seus caminhos; do universo e seus mistérios; da amizade e das pequenas coisas simples da vida: sorrir, ouvir, cantar, escrever para alguém. Celebração da dança da alegria e do amor.

 

Amor perene. Contudo, vicissitudinário. Talvez borboleta. Assim, delicado e cintilante. Forte e sutil. Esparsa e dispersa volúpia dos dias. Dias Alcinianos.

 

Eu gostaria de ser como um dia Alciniano. Uma fauna de flores e vocábulos. Um grande e discricionário recipiente de tudo quanto alegra e promove o bem. Que torna límpido o que é obscuro, que conforta a falta de fé; que alegra o que é triste, que valoriza o caráter intrínseco da amizade. O Dia Alciniano tem a leveza do vento e a veemência de um furacão.

 

Um Dia Alciniano é um catalisador de sonhos, risos, virtudes, metáforas e segredos humanos. Uma suave e fina brisa da manhã que nasceu fulgurante. Uma resplandecente e melodiosa maré da tarde que converge esperança. Uma sedutora linguagem mitográfica da noite que acolhe em braços amigos. O Dia Alciniano é um sorriso largo e demorado no tempo.

 

Gostaria de ser um Dia Alciniano. Mas sou só sonhos e desejos. Sentidos e cantos. Menino de letras e espaços em branco, que vagueia nas linhas da amizade e do coração, para em um pequeno instante de satisfação e conforto, aproximar-se de linguagens e figuras Alcinianas.

 

E nesse singelo e intenso momento de reverência, percorro o vazio de uma noite comum e encontro um jovem dia, encantado de graça e beleza, de fonemas e canções de amor e alegria.

 

É que Deus sabe que esse dia, ainda é uma garotinha.

 

Feliz aniversário, Alcina.

 

 

Jânio Dias 



Escrito por Jânio Dias às 06h36
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À PROCURA DO PERFEITO PRIMEIRO PARÁGRAFO

(para Alexandre Rodrigues)

 

 

Imagem: Igamah Abu Bakar

 

"O sol ainda não nascera. Era quase impossível distinguir o céu do mar, mas este apresentava algumas rugas, como se de um pedaço de tecido se tratasse. Aos poucos, à medida que o céu clareava, uma linha escura estendeu-se no horizonte, dividindo o céu e o mar. Então, o tecido cinzento coloriu-se de manchas em movimento, umas sucedendo-se às outras, junto à superfície, perseguindo-se mutuamente, sem parar".

Virginia Woolf, em As Ondas (primeiro parágrafo)

 

Tenho um amigo que procura o perfeito primeiro parágrafo. O começo que estende o veludo do caminho no imaginário. O início que dará sentido e amplitude ao desconhecido que nos aguarda. O princípio que será oposição do que for afirmado nas interrogações. O trecho inicial que será as exclamações das reticências no ponto final. Os primeiros traços de um desenho que comporá um quadro de impressões subjetivas e sensoriais. A janela que permitirá a passagem do vento para a paisagem. Ele vê no primeiro parágrafo a força da invasão.

Ele sabe com antecedência a grandiosidade de um livro ao se deparar com o primeiro parágrafo. Ele vislumbra o meio, o desenrolar, a evolução, o ápice da obra pelo primeiro parágrafo. Ele sente a temperatura da história no primeiro parágrafo. Ele desconfia do narrador, da primeira pessoa, da terceira, do interlocutor, da menina desejada, da vida interrompida no primeiro parágrafo. Ele pressente o fim no primeiro parágrafo.

Ele bebe para discutir sem concluir sobre o primeiro parágrafo. Pede um chope e uma caipirinha ao mesmo tempo. Relembra lugares visitados, conta histórias antigas, cria novas, insere novos personagens; discuti Virginia Woolf e Renato Russo, Julio Cortázar e Chico Buarque, o Santos de Pelé e a seleção de 82. Ele descreve o perfeito primeiro parágrafo como a realidade que visitou o sonho.

Ele lembra de antigos amores como primeiros parágrafos. Letras arrebatadoras que traduziram o sentido da vida em instantes. Espaços distanciados que preencheram a folga da espera. A luz celeste nos corpos embebidos de desejo. A pólvora adocicada que produz ferimentos na retina da memória. Ele recorda um primeiro parágrafo para viver o próximo.

Ele dorme para encontrar o perfeito primeiro parágrafo. Caminha por florestas de árvores centenárias, tropeça em galhos secos, conversa com passarinhos, pisa em poças barrentas que se transformam em mar de céu fechado, enfrenta a tormenta, afoga-se, emerge, afronta o tempo, é carregado de volta a terra pelo mar e o vento. O perfeito primeiro parágrafo deve estar escondido nas entranhas da natureza.

Ele sai para trabalhar pensando no primeiro parágrafo. Beija a esposa e a filha como parágrafos distintos que sugerem complemento à perfeição: a primeira é o parágrafo inicial, a segunda o parágrafo que faltava.

Ele vai para o almoço refletindo sobre o primeiro parágrafo. Sua fome é como o sabor do prato que se ouviu falar e ainda não se conhece; sua vontade é comer o primeiro parágrafo que ainda não foi descoberto.

Ele confia no poder da amizade como crer na importância do primeiro parágrafo. Um amigo de verdade é um primeiro parágrafo bem escrito.

Ele tem uma história pessoal para ser contada que não possui o primeiro parágrafo. Seu sonho é travado no primeiro parágrafo. Sua vida é incompleta no primeiro parágrafo.

Jânio Dias



Escrito por Jânio Dias às 21h53
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BUON GIORNO, PRINCIPESSA!

Girl with a boat, de Pablo Picasso 

 

 

“And all the roads we have to walk are winding

And all the lights that lead us there are blinding”

 

Oasis em, Wonderwall

 

 

21/11/2006 – 20h35

 

De: Cris Moreno

 

Para: Jânio Dias

 

 

Tenho estado mais ocupada do que o normal, consegui aproveitar apenas o último final de semana prolongado do ano, que mais feriados teve... minhas férias começaram hoje, e estava eu hoje... trabalhando! Fechamento mensal, essas mesmas coisas de sempre!

 

Abri minha caixa de emails... 156 não lidos!!!! 555 no total! Na maioria emails bonitinhos que ficam aguardando que eu tenha um tempo para repassar para aqueles que tanto gosto... e o tempo passa. Aí vejo que há um seu... tão difícil isso, (estou até agora, esperando uma resposta, sobre um encontro nosso na Paulista, que se não me engano, o convite foi feito desde o seu aniversário...), e resolvo ler... entrar no blog!!!

 

(...)

 

Você continua o mesmo, e mesmo distante quero que saiba que continuo te admirando!

 

Um gde beijo,

 

Cris                                                                                                                                                                                                              

 

continua...



Escrito por Jânio Dias às 08h36
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continuação.

 

Dia 16 último foi aniversário da Cris. Quando a conheci era minha “inimiga”. Ela fazia parte de uma equipe que havia substituído as pessoas com as quais eu trabalhava. De todo o pessoal antigo, eu havia sido o escolhido para ficar algum tempo passando o serviço, tirando dúvidas. Ela tinha a incumbência de falar comigo para aprender toda a rotina. E eu havia ficado contra a minha vontade, a pedido de um diretor e em função de uma necessidade maior. Ela vinha falar diretamente comigo e eu tentava passar só o indispensável. Escondia atalhos e só lhe mostrava o que era perguntado. A achava uma pessoa bem legal, mas o clima criado com a demissão das outras pessoas me deixava frio e ressentido. Beirava o mau tratamento. Mas era impossível ser mau com ela por muito tempo. Sentávamos um ao lado do outro e ela não é de ficar quieta. Eu interagia sempre quando o assunto eram filmes e música. Ouvia indiretamente seus telefonemas, reclamações, anseios... Começamos a ficar mais próximos. Até trocávamos e-mail’s onde eu dava opiniões e dizia o que achava dela. Ficamos amigos. Tão próximos que quando a gente chegava pela manhã eu dizia: “Buon giorno, principessa!!!”  E ela retribuía com os braços abertos e toda sorridente: “Buon giorno, amore mio!!!”. E nos abraçávamos.

 

Na sexta feira passada à noite, quando entrei no orkut e vi o aviso com a carinha dela informando seu aniversário, pensei em ligar imediatamente. Quando passei a teclar os números meu coração começou a bater mais rápido. Fazia tanto tempo que não nos falávamos... A sala tava até gelada por causa do ar condicionado, mas mesmo assim, senti que começava a transpirar. O telefone começou a chamar, chamar, chamar, até dar caixa postal. Tentei deixar uma mensagem alegre de feliz aniversário, mas as palavras sumiram. As que apareceram engasgaram-se, tropeçaram uma na outra. Estavam tão ansiosas com a possibilidade de falar com ela que se chocaram. Eu parecia um bêbado falando. E com certeza ela vai achar que eu tava bêbado, porque acabei deixando uma mensagem de feliz aniversário toda tonta, cambaleante e visivelmente embriagada. Embriagada de saudade, acho.

 

Quando voltei pra casa procurei uns e-mails impressos que guardei da época que trabalhamos juntos. Um deles, trocado com ela, diz algo que acho que enternece nossa história:

 

“Existem pessoas nessa vida que a gente percebe (às vezes mais cedo, às vezes mais tarde) que vão fazer parte da nossa história, e que sempre poderemos contar com elas. Elas aparecem em nossas vidas como folhas que vem ao chão no outono, passamos por cima, não percebemos, e mais na frente viram fruto, criam raízes. E passam a fazer parte definitiva de nossas vidas. Por mais estranho que as coisas possam passar a ficar, sabemos que existem em nossas vidas raízes com as quais poderemos sempre contar, e que cada novo dia é uma vitória de aprendizados, e que o que interessa é realmente poder crescer com tais ensinamentos. Ensinamentos da vida. Nada mais compensador. Você – assim como todos nós – está aprendendo com todas essas situações difíceis; e o mais importante de tudo, é que já somos quase raízes”.

 

 

Dia 16 foi aniversário da Cris Moreno. A Cris é Moreno, mas é branca como neve. É suave como manhã que nasceu após a chuva. É radiante como sol que nasce atrás dos montes. É fascinante como paisagem de campos floridos. É irresistível como chuva que cai vista da janela. É arco íris no final das tardes de verão. É cobertor em noite fria. É raio de sol na garoa do inverno. É forte como pedra que já nasceu lapidada. É doce como suspiro que se desintegra no céu da boca.

 

A Cris têm sentimentos do tamanho do mundo.

 

 

Jânio Dias



Escrito por Jânio Dias às 08h36
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ALGO EM MIM

Arquivo pessoal.

"O amor comeu minha paz e minha guerra, meu dia e minha noite, meu inverno e meu verão."

Cordel do Fogo Encantado em, Dos Três Mal Amados

 

Havia algo em mim que não cabe mais

Algo que me tornou servo de meus dias

Que me fez vítima de minha inocência

Agente imerso de meus desejos inacabados

Conselheiro hostil de uma certeza desabitada

Fugitivo de minha procura solitária

Réu de meus apelos encandeados

Porteiro da espera da casa assombrada.

Há algo em mim que habita vales suspensos.

 

Havia algo em mim que não surge mais:

O grito de urgência do fogo nas paredes

A saliva que penetra a toada da felicidade

Os dentes que libertam as palmas da inquietação

A violência dócil que rasga a carne tenra

A cicatriz que desperta o limiar da excitação

A loucura que expande o tempo rente na vida

Algo que abandonou minha aspiração de resistir.

Há algo em mim que reside no frio quieto da seda.

 

Havia algo em mim que não me procura mais:

A porta que esconde as chaves dos sentidos

Os talheres que expõe a mesa afiada do desejo

A toalha que encoberta o corpo liso da culpa

O chão voador que aterrissa os tapetes da luxúria

A bebida ardente que ensandecia os dedos da chegada

A esperança conjunta que embriaga as mãos da partida

Algo que renunciou minha vontade de permanecer.

Há algo em mim que vive um sono denso de riso amargo.

 

Há algo em mim que nunca desistiu de estar:

Uma tristeza seca que inunda quintais rasos.

 

Só sobrou em mim o que não se cansou de morar em mim.

 

Jânio Dias



Escrito por Jânio Dias às 12h21
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ABOUT KEKA

Foto by: Erika Nobre  

"always take my time,
take my time and I can find my way"

Teenage Fanclub, em About You

 

Menina desenleada que sublinha a contestação nos hábitos. Concorda acariciando fogo, diverge beijando tempestade. Almoça filmes e janta autores. O café da manhã são quadrinhos que cresceram. Devora palavras sabor inquietude. Desfila opiniões com cobertura de sarcasmo ferino. Doa os olhos pelo som da trilha sonora. Enxerga na estampa de uma camiseta provas de amizade. Sua fé é punk rosa, sua esperança é rock de cores dissimuladas. Aperta a mão pelo cheiro de sinceridade. Abraça oferecendo pão. Esmurra afastando da memória. Diz não para confiar na boca da razão. Aposta no sim para crer no sentir da canção.

Jânio Dias



Escrito por Jânio Dias às 12h49
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OB-LA-DI OB-LA-DA

    Imagem: Portrait of a Lady 

 

 

“What happened to us

Jusqu'à la fin

Soon it will be gone forever

En plein soleil

Infatuated only with ourselves

Jusqu'à la fin

And neither of us can think straight anymore” 

    Blur em, To The End

 

E então um outro amor chegou ao fim.

Não há muito que fazer, além de descansar agora a vontade de tentar de novo. Não se importar com a avenida em movimento, ligar o pisca alerta, parar o carro e descer. Largá-lo e sair andando na garoa. É preciso caminhar com as próprias pernas para descobrir o caminho de volta. Sentir os olhos embaçados e o peito apertado. A roupa ficando úmida no corpo e o vento frio batendo no rosto. Ignorar o ar da noite que diz que é preciso estar sempre acompanhado, quando o que se precisa é estar sozinho consigo mesmo. Dar um tempo para si para que a vida retorne onde o tempo parou.

Deixar para lá, por algum tempo. Largar o coração a sangrar. Despejar as lembranças da memória. Chorar nos dias de sol em frente à janela. Fazer apliques no cabelo e pintá-lo de laranja. Jogar um balde de tinta verde-piscina contra a parede do quarto, logo atrás da cama. Olhar a chuva que não perdoa a poeira parada. Dar comida e conversar com os peixes. Chamar as amigas para rever aquele seriado da moda. Alinhar seus dvd’s pelo tipo de emoção: alegria, tristeza, raiva e medo. Beber menta com gelo enquanto afunda os pés na areia da praia. Comer pipoca de madrugada enquanto conversa no msn. Desligar o celular por tempo indeterminado. Comprar um cd importado que você possa baixar na internet. Ir ao cinema às onze da manhã de uma segunda-feira. Comprar ingressos para o jogo do time do coração do irmão. Levantar antes de o sol nascer para tomar suco de goiaba. Colocar seus livros em ordem de prioridade de salvamento em caso de incêndio. Comprar um novo par de All Star azul. Trocar todas as canções do seu Ipod por canções de bandas dos anos 00. Fazer uma viagem de ônibus de no mínimo seis horas. Ir ao teatro para sentir a alegria e a dor de quem interpreta. Pular de bung-jump para cumprimentar seus medos. Chamar uma árvore de amiga. Ser o controlador de vôo dos passarinhos. Preparar a mochila para descer a serra. Pegar a estrada com musiquinhas alegres e assobiáveis no rádio do carro. Correr no final da tarde para encontrar o sol se pondo. Fazer uma festa havaiana em volta de uma piscina de plástico. Embebedar-se de água de coco. Pintar as unhas de cores diferentes, dia sim e dia não. Encher vários potes de jujuba e só comer as de cor vinho. Preparar um jantar para os amigos da época da faculdade. Catalogar todos os cd’s e dar estrelinhas para eles. Cantar Movin’ on Up do Primal Scream na fila do banco. Fazer academia para compensar o sorvete com salada de frutas e licor de cupuaçu. Juntar todas aquelas revistas antigas e fazer um fogaréu. Beber vinho barato com amigos em volta do fogaréu. Comprar uma cartela de canetinhas coloridas e pintar desenhos abstratos até secarem as tintas. Ir para a balada e não se entusiasmar em ficar com ninguém. Sair para conversar com os três últimos namorados. Deletar os 1.023 scraps dele da página do Orkut. Reconfigurar o belo e instigante álbum de fotos virtual. Enfrentar a caixa de sapatos onde você guarda fotos e bilhetes. Escrever uma carta de acusações, culpa e desculpas que você nunca enviará. Montar um blog que fale de rock e amor. É preciso dar tempo a uma outra vida, por algum tempo.

Não existem segredos para aliviar a dor de um coração. Nenhum coração esvazia a força. É preciso mantê-lo ocupado, distraído e... dar-lhe tempo. Tempo para se desfazer. Um tempo para recomeçar. Um tempo junto aos amigos, à família, à coisas que deveria se arriscar de vez em quando. Um tempo de silêncio e pés no chão. Um tempo de canto e olhos na memória do presente. Um tempo junto a um universo paralelo de fábulas, borboletas e flores. Sem dar tempo ao tempo.

Deixar um amor ir embora é sempre a forma mais provável de não esquecê-lo.

Jânio Dias



Escrito por Jânio Dias às 09h09
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DANÇANDO NO ESCURO

 

Imagem by: Agatha Katzensprung 

 

“Por onde vou guiar o olhar que não enxerga mais?

Dá-me luz, deus do tempo

Dá-me luz, deus do tempo

Neste momento menor

Pra eu saber teu redor

 

A gente quer ver horizonte distante

A gente quer ver horizonte distante”

Los Hermanos em, Horizonte Distante

 

Meus olhos possuem uma paixão que vai além de mim. Eles querem todo o tempo o movimento leve e ágil do corpo, os braços rompendo o ar com mãos que agarram algodão doce, as pernas entrelaçando-se num oito que voa de um salto a outro, o pouso num abraço que me devolve ao outro lado para recomeçar. Meus olhos são bailarinos de mim.

Meus olhos sonham acordados com a menina que passou segurando as flores que eu havia enviado pela manhã. Eles dançam de olhos dados. Encostam o peito nas costas, a nuca nos lábios, a língua nos lábios, os lábios na boca. Meus olhos percorrem todo seu corpo e dormem abertos. Meus olhos acordam para sonhar.

Meus olhos não se cansam. Eles querem batucar na linha de produção, fazer zeriguidum com as prensas que cortam as lâminas, ser iluminados pelas faíscas das máquinas de solda, chacoalhar com as centrífugas que batem a roupa, rodopiar entre parafusos e porcas. Meus olhos são engrenagens que dançam.

Meus olhos ignoram o perigo. Eles caminham mansos e serenos pela linha do trem; não se importam com o barulho avisando sua chegada. Querem sentir a força do vento que passa e não desvia, os cabelos arrastados, os pés que tropeçam e o corpo que não cai; as mãos soltas que não têm onde apoiar. Meus olhos não se importam em estar sozinhos.

Meus olhos juntam dinheiro. Eles querem um dia não se calar, continuar a enxergar beleza na distração do filho com a bicicleta no quintal, no verde em volta da casa, no papo disperso com a amiga da fábrica, no caminho que leva de volta para casa, no musical que tem o final feliz, no postal que estampa a muralha da china, nos homens de boa vontade que eles acreditam existir. Meus olhos um dia comprarão esperança.

Meus olhos guardam segredos. Não revelam a dor de um amor feliz, mas protegem o coração da dor. Minha felicidade é amar enxergando a reciprocidade. Compartilham a confiança de quem se fecha para ser aberto, de quem interroga para se entregar. Meus olhos não incriminam quem confessa o próprio pesar. Meus olhos são parceiros da estima.

Meus olhos são de criança. São pequenos e apertados. Um par de óculos que os deixam maiores. Duas bolas brancas de futebol com a marca do pênalti pintada no meio em preto. Pingos grossos de tinta caindo sobre o papel em branco. Bolinhas de gude guiando o caminho da escola. Estrelas embaralhadas no primeiro beijo atrás da escola. Dia nublado no peito quando a menina mais bonita foi embora. Meus olhos se molham e não se secam quando lembram dela. Meus olhos tomam banho de lembrança.

Meus olhos sabem da morte. No desgosto do amigo com o amigo. Na paixão tépida. Na manhã que nasce ausente de fé. No trabalho da sobrevivência. No emprego de conveniência. No ano novo que envelhece dias em segundos. Na justiça que me ignora. Na lei que não serve para mim. Nos políticos que não merecem meu olhar. Meus olhos vêem homens saltando como cangurus, amando como coelhos, mentindo como generais. Meus olhos têm o tino da escuridão.

Meus olhos apaixonam-se facilmente. Pela doçura da face sorrindo, pelo gesto educado da menina agradecendo, pela beleza do aceno na despedida; pelas flores bebendo chuva no jardim, pelos dias de sol nas cópulas das árvores, pelo trabalho operário dos passarinhos em seus ninhos; pela novidade da criança que vai nascer, pelo velhinho empolgado em contar suas histórias, pelo tintim no copo que celebra a amizade na vida das pessoas. Pela música que embala na alma cada momento. Pela dança que rodopia no ar todos os instantes. Meus olhos são amantes de coisas singelas e belas.

Meus olhos são carvão e anil. Meus olhos são terra vermelha e água do mar. Meus olhos são velas acesas que serenam nas chuvas de janeiro.

Meus olhos escorrem pela boca. Meus olhos engolem a noite. Meus olhos calam o juízo.

Meus olhos sentem além do que vê o coração.

Jânio Dias

 

Pensado e sentido – em grande parte – pelo belo e comovente filme Dançando no Escuro, de Lars Von Trier, estrelado por Björk.



Escrito por Jânio Dias às 19h17
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PORQUE ERA NATAL

La Música, de Raul Soldi 

“I was a good kid

Through hail and snow

I’d go just to moon you

I carried my heart in my hand

Do you understand?

Do you understand?”

Morrissey em, I Have Forgiven Jesus



Escrito por Jânio Dias às 17h47
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Eu nunca havia entendido o natal. Aquele período do ano em que as pessoas ficavam diferentes, agitadas, com pressa, indo às lojas, enfeitando os lares, desejando tudo de bom ao outro. A comida das casas aumentava. As visitas aumentavam. Os passeios aumentavam. As gentilezas surgiam. As histórias, os contos, também.

Eu devia ter sete anos de idade. Filho único que morava com o pai e a mãe. A vizinha da rua de trás, que ficava do lado esquerdo, tinha uma filha que era uns quatro anos mais velha do que eu. Ela também era filha única. Vivia muito lá em casa e eu na dela. Era esperta o suficiente para me fazer acreditar que ela era gente grande. Falava comigo com a autoridade da tia da escola. O nome dela era Simone. Era fisicamente diferente da tia da escola, mas quando falava comigo eu acreditava no que dizia como se fosse. Meus pais nunca se esforçaram para eu acreditar em papai-noel, mas ela me fez pensar por algum tempo no significado do natal.

Naquela época eu tinha um cachorrinho lindo, todo peludo num branco cinzento, quase aveludado, chamado Lulu. Eu adorava ele. E tinha um gato também, chamado Mimi. Era preto, branco e cinza. No programa do Bozo torcia pelo cavalinho malhado por causa dele. Tinha os olhos mais azuis que um gato podia ter. Eles adoravam brincar juntos; ou melhor, o Lulu era que adorava brincar com Mimi. Às vezes Mimi tava dormindo e Lulu chegava pertinho e passava a patinha na orelha dele que acordava e ficava em posição de ataque para se defender, não para brincar. Mas Lulu parecia sempre achar o contrário. Estava sempre lhe fazendo um convite à diversão.

Mimi era preguiçoso e tava sempre sumindo. Ficava dois, três dias sem aparecer; mas sempre voltava. O Lulu não, tava sempre junto. Na sala, em cima do sofá, na rua, me seguindo até o portão da escola. Lá tava ele querendo fazer parte de tudo.

Um dia havia chovido muito e as ruas do bairro ainda eram de terra. Os ônibus não apareceriam enquanto o sol não se fizesse presente e endurecesse a lama. Naquele dia meus pais precisavam ir ao mercado e resolveram andar um bocado até a parte de asfalto. Lulu nos seguiu. Meus pais tentavam mandá-lo de volta para casa aos berros. Ele parava, fazia de conta que voltava, e continuava mansamente atrás, quase que escondido, disfarçando-se ora de poste, ora em árvore. No momento em que entramos no ônibus tive a impressão de tê-lo visto correndo atrás, perdendo-se entre a fumaça e as poças de água na rua.

Quando voltamos para casa Lulu não estava. Procurei-o em sua casinha, embaixo da cama, do tanque, atrás das caixas, nos vizinhos, na Simone e nada. Meus pais disseram para eu não me preocupar porque ele iria aparecer. E meu pai até prometeu que iria sair para procurá-lo. Mas foi a Simone que disse que ele devia ter conhecido uma cachorrinha no caminho e que alguns dias depois voltaria. Eu acreditei nela e fiquei pensando se ele voltaria acompanhado.

Dois dias depois ainda chovia e o tempo era cinza e quase frio. Mas perto do fim do dia, quando eu já tinha acabado de ver a Sessão da Tarde e observava minha mãe lavando roupa no tanque, Lulu apareceu no corredor, todo sujo de lama e o rabinho balançando feliz. Ele veio saltitante, língua fora da boca e patas enlameadas para cima de mim. Ele havia voltado, estava sozinho e eu achava que a Simone provavelmente tinha razão.

Alguns meses depois, já dezembro, a dona do terreno imediatamente atrás da nossa casa apareceu para visitá-lo. Ela era freira e tinha intenção de um dia construir um lar beneficente nele. Meus pais estavam com ela lá no terreno, e eu por perto com minha bola. A rua em frente ao terreno dela era uma descida para a direita, e o Lulu estava lá, brincando de nada, com ninguém. De repente desceu um caminhão despreocupado com a estrada e o atingiu. Foi um desespero da minha parte. Choro ininterrupto. Uma dor inconsolável. Minha primeira perda.

Odiava para sempre naquele momento a freira, aquele terreno, aquela rua, aquele caminhão, o motorista que parou e prometeu outro cachorro. Odiava aquela data. Odiava dezembro. Odiava o céu para onde supostamente ele havia ido.

Nem a Simone sabia o que me dizer. Não tinha nada para me prometer dessa vez. Mas ela me fez lembrar que logo seria natal, e coisas boas aconteciam naquela data, ela achava. Que além da gente comer bastante, ganhar brinquedo, sair para passear e receber visitas de outras pessoas, e todo mundo de repente ficar mais bonzinho, a gente sempre ouvia um monte de canções bonitas naquela época. E que havia aprendido na escola que natal era o mesmo que nascimento. Que a maioria das crianças que nasciam naquele período ganhavam o nome de Natália. E que todo nascimento além de bonito era importante e especial: para os pais, para os irmãozinhos e para quem nascia. Que outro Lulu poderia nascer naqueles dias em qualquer lugar do mundo; não o meu Lulu, mas um outro tão bonito, importante e especial, que daria alegria e faria outras pessoas felizes.

Fiquei menos triste e por algum tempo até passei a achar o natal legal. O natal era uma forma de amenizar um pouco o que as pessoas perdiam, e acrescentar um pouco mais de vida e fé onde quase nada de bom acontecia. O nascimento era o recomeço da esperança.

E um dia antes da véspera daquele natal, de madrugada, um barulho de miado incomodou meus pais. Eles se levantaram para ver o que era e perceberam que ele vinha da casinha que era do Lulu. De lanterna na mão aproximaram-se da entrada do ruído.

Lá dentro estava Mimi lambendo três filhotinhos. Descobriram que Mimi era fêmea e tinha dado à luz.

Três gatinhos haviam nascido.

Porque era natal, eu imaginava.

Jânio Dias



Escrito por Jânio Dias às 17h47
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