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O ASSASSINATO DOS SONHOS

Imagem: Yvonne Steinmann
"E ao chegar lá fora Direi que fui embora E que o mundo já pode se acabar Pois tudo mais que existe Só faz lembrar que o triste Está em todo lugar"
Pato Fu, em Agridoce
Olá!
Quanto tempo, não?!
O que você tem feito?
O que a gente combinou quando nos vimos pela última vez mesmo?
Quantos sonhos você assassinou desde a última vez que nos vimos?
Sabe, eu tenho problema com sonhos, nunca me lembro deles quando acordo. Acho que mato os sonhos. Chega uma idade em que não lembramos mais dos sonhos, mas os sonhos não esquecem da gente... e aquela pessoa que matamos nos sonhos também não esquece.
Esse blog estava dormindo desde fim de março passado, e desde então assassinou alguns sonhos, como o próprio sonho de continuar existindo nesse espaço.
Ele sou eu e vice-versa. O mais otimista poderá dizer que ele não morreu, pois enquanto ele estiver aqui, com uma imagem sorrindo, com uma epígrafe cantando, com palavras tomando as mais diversas formas, ele continuará existindo. Logo, com ajuda do raciocínio do amigo otimista, ele está apenas hibernando.
Ok, tudo bem. Mas o fato é que desisti de despertá-lo. Mas como para viver é preciso existir, ele vai continuar dormindo aqui para acordar (sonhar, talvez?) em outro lugar.
A partir de hoje você poderá me encontrar aqui: http://www.janiodias.blogspot.com/
Não demore para me visitar, quero criar e dividir outros sonhos com você; pois assassinar, acabei de fazer.
Beijo de sonho,
Jânio Dias
Escrito por Jânio Dias às 22h38
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BINHO

imagem by: Piko
“De onde vem o jeito tão sem defeito
Que esse rapaz consegue fingir?
Olha esse sorriso tão indeciso
Tá se exibindo pra solidão”
Los Hermanos, em De Onde Vem a Calma
“Eu queria tanto encontrar
Uma pessoa como eu
A quem eu possa confessar
Alguma coisa sobre mim...”
Pato Fu, em EU
O Binho é o melhor amigo do meu irmão. Ambos possuem o mesmo nome (Fábio) e devem possuir a mesma idade, logo, uma distância considerável em relação a minha. Foram muitos anos o vendo em casa e apenas cumprimentos rápidos. Acho que ele não gostava de mim, ou de alguma forma, tinha medo de mim, assim como alguns outros amigos próximos do meu irmão.
Um dia, num domingo à noite, havia vários deles na sala ouvindo Sepultura num volume muito alto. Porém, os twiters das caixas de som estavam estourados, o que provocava um zumbido abafado e desqualificável aos ouvidos. Comentei com eles de forma um pouco mais incisiva o crime sonoro que eles estavam cometendo. Todos se retiraram da sala. A bronca não era por estarem ouvindo have metal num domingo à noite, mas sim por estarem perdendo a "essência" da música com aquelas caixas de som. Para mim era um orgulho encontrá-los reunidos ouvindo rock, mesmo que fosse Sepultura. Acho que a imagem de irmão mais velho os intimidava.
Os anos se passaram e como sempre acontece, muitos dos amigos de ontem não estarão presentes amanhã. Com exceção do Binho. Ele é cada vez mais integrante da família.
O tempo vem passando de forma curiosa para ele. Já gostou (diz que ainda gosta, mas não o toca mais como antes) de neo metal, emo, hardcore... Já apareceu em casa com um cd de pérolas clássicas sertanejas... Já teve a fase Los Hermanos safra álbum 4 e agora vive um curto momento de equilíbrio ao lado de Moptop. Não gostava dos livros clássicos da escola, mas se amarrou recentemente em Verônica Decidi Morrer; daí passou a ler tudo que fosse possível do Paulo Coelho. Ele acha que Munique do Spielberg é melhor que Crash - no Limite. Sua relação é muito mais intensa e profunda com o pai do que com a mãe. Um copo de vodka sabor laranja com guaraná, e até a minha namorada recebe galanteios. Já me disse que não gosta de crianças, mas me pediu recentemente uma foto tirada com a minha sobrinha de um ano. Semana passada, em tom de confissão, revelou que se emocionou num episódio de desenho japonês. Temos conversado muito ultimamente, e até recebo recados perguntando se estarei em casa no fim de semana para juntar o pessoal e tomarmos uma. Mas o mais curioso foi ser surpreendido esses dias com um belo e sensível poema de sua autoria sobre ele mesmo.
Gostei de ver que o melhor amigo do meu irmão caçula, é o melhor amigo que ele poderia ter.
Jânio Dias
Escrito por Jânio Dias às 09h54
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EU
de Fábio Oliveira Lopes (Binho)
Às vezes posso me achar um ninguém
Mas como assim um ninguém?
Sou "alguém",
Alguém que nasceu em 86
Alguém que tem a quem amar.
Sou assim...
Deixo a barba crescer um pouco,
Pois ela gosta.
Não gosto de usar chinelos;
Não andava sem camisa.
Acho-me magro, mas temo engordar,
Ouço músicas que meus amigos gostam,
E acabo gostando também;
Não sou sentimental, mas às vezes acordo triste.
Tenho medo do futuro.
Mesclo momentos de alegria com meus amigos,
De tédio sozinho,
E de amor com uma só pessoa;
Fujo daquilo que não suporto
Não busco o que quero.
Não conheço a formula da felicidade
Mas não sou triste.
Ninguém me pergunta como foi meu dia,
Por isso, talvez, eu nunca pergunto a ninguém;
Não sei ser social, apesar de tentar.
Passo despercebido entre estranhos
E assim quero,
Passo despercebido entre meus amigos,
Isso não me agrada,
Mas é só às vezes, e por minha culpa.
Outro alguém corrigiu alguns de meus defeitos
E sofreu por outros incorrigíveis, mas controláveis:
Quero que sejamos felizes, todos juntos,
Amigos, família, amores.
Quero crescer, e ser alguém melhor,
Pois só "alguém", já sou.
13/03/2007 – meus pensamentos
Escrito por Jânio Dias às 09h54
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LETRA E MÚSICA

Lute Player, de Orazio Gentileschi, 1626.
“Que a minha loucura seja perdoada
pois metade de mim é amor
e a outra metade
também”
Metade, poema de Oswaldo Montenegro.
Ela disse que todo relacionamento começa com 50% de chances. As coisas podem pender para um lado ou outro. É possível que se siga uma estrada onde a terra seja habitável e dê frutos, ou ficar a seguir um caminho de onde nada nascerá. É possível que a paixão surja repentinamente em meio a fumaça turva do acaso e que brilhe como composição escrita ou instrumental, que toca antes os ouvidos e a pele, depois o coração. Ela acredita que o amor pode começar numa meia canção: às vezes na letra, outras na música.
Quando nossos olhos se viram pela primeira vez, os meus recitaram um trecho da letra de uma canção para os dela; os dela entoaram uma melodia para se encostar aos meus. Nossos olhos ao se encontrarem pela primeira vez, sabiam que existiria mais que 50% de chances deles se apaixonarem. Uma paixão nasce da metade do desejo do outro.
Ela gosta mais de falar e eu de ouvir. Às vezes ela se irrita por falar demais, as vezes eu me incomodo por não ter tanto a dizer. Eu quero ser um poço sem fundo para suas memórias, mas sou apenas metade olfato para seus conceitos. Eu não falo tanto porque gosto de cheirar suas lembranças.
Quando caminhamos lado a lado na rua, eu procuro ficar do lado de fora da calçada. Quero protegê-la dos carros e das poças, dos andantes e dos olhares que não tenho controle. Eu tento ser metade da calçada para seus pés. Eu sou metade tapete suspenso que ela pisa para eu sentir seus passos; para disfarçar de chão o piso que ela não sabe que existe.
Se tivermos que sair na garoa, dôo minha metade do guarda-chuva para sua cabeça. A chuva miúda me dá a sensação de fazer algo por ela. A persistência das gotas reflete minha paciência em tê-la para mim.
Ela me espera no metrô perto das cadeiras. Procuro descer no sentido oposto apenas para ter sua imagem parada: ela sentada me esperando. Desejo não chegar, desejo que ela não me veja para que a imagem não se desfaça. Desejo que nosso encontro seja metade que se contempla. Os passos que nos separam é o silêncio da falta de ar ao encontrá-la.
Às vezes a beijo com pressa e fúria, outras vezes permito a lentidão suave do ar raso de sua boca invadir a minha. Eu a beijo com ímpetos de destruição. Eu a beijo como dança lenta que percorre a noite. Eu a beijo metade loucura, metade amor em câmera lenta. Eu a beijo com vontade de não parar mais. Ela me beija como eu a beijo: com sons dilacerantes e entrega irrevogável.
Eu tento ser bom para ela e não falar em futuro, promessas de casamento ou eternidade antecipada. Meus dias são seus cabelos e nuca, sorrisos e olhares, mãos e boca, pescoço e seios, ventre e cochas, seus pés e a cama. Tudo que posso tocar instantaneamente, tudo com que posso brincar perdidamente. Meu abrigo é seu abraço, meu esconderijo sua alegria; meu conforto é tê-la por perto, meu descanso é estar com ela. Sou metade refém de sua morada.
Eu sou sempre metade do que não serei; ela será sempre o complemento do que não posso ser.
Se eu sou o pôr-do-sol, ela é a manta alaranjada que contorna as nuvens no céu. Se ela é arco-íris, eu sou os sete traços no alto esperando por ela para ser preenchido com suas cores.
Eu sou letra, ela a música. Às vezes eu sou metade melodia, outras vezes, rascunhos da composição.
Se ela é o canto, eu sou o movimento dos lábios.
Raro é o amor que se torna uma perfeita canção.
Jânio Dias
Escrito por Jânio Dias às 12h51
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O LABIRINTO DO FAUNO

Imagem: cena filme
“And if my parents are crying,
Then I'll dig a tunnel from my window to yours
Yeah, a tunnel from my window to yours”
Arcade Fire em, Neighborhood #1 (Tunnels)
Quando menino pequeno, imaginava que quando crescesse seria muitas coisas. Lembro que no meu aniversário de sete ou de oito anos, eu acordei meus pais para que me dessem feliz aniversário, e enquanto brincava de cavalinho no colo de meu pai, minha mãe fazia contas prevendo o que eu seria em determinada idade. Como havia entrado na primeira série apenas com seis anos e meio, minha mãe me ajudava na fantasia de que aos 17 faria medicina, aos 22 passaria pelo exército por causa do meu padrinho, depois estudaria para ser advogado, e se quisesse, poderia até trabalhar na televisão, pois eu também poderia ser um ator. Mas antes, eu tinha que ser um doutor. A imaginação da minha mãe queria que eu fosse alguém.
Como fui filho único até os nove anos de idade, era comum eu brincar comigo mesmo e com minha imaginação. Um dia olhei para o céu azul e de nuvens brancas como algodão doce que formavam carneirinhos ou rostos com barba no alto, e gritei para dentro de casa: "Mãe, você disse que Deus mora no céu... tô vendo Deus lá em cima desenhando..." Minha mãe não alimentava fantasias que julgava impossíveis de acontecer: "Pára com isso filho, mentir é coisa muito feia e Deus não gosta..." "É verdade...", eu insistia. No fundo, ver Deus era fazer parte de tudo que existia.
Adorava fazer de conta que eu era o Ultraman. Sabia tudo de karatê e lutava contra monstros verdes que quando estavam quase me vencendo, eu reagia velozmente e os eliminava com meus golpes e raios. Assistia ao Jonny Quest e repassava o episódio inteiro na minha cabeça; porém, eu era o Jonny. Pegava fita isolante e passava em volta dos pulsos como se fossem braceletes do Space Ghost, pois assim, eu seria ele. Prendia uma toalha grande nas costas e levantava vôo; eu era o Superman. Meus medos eram transformados em coragem e determinação quando eu virava um deles. Minha imaginação brincava de lutar contra o mal.
Um dia, meu time de futebol perdeu o campeonato estadual em casa para um time do interior, por 2 x 1. Foram inúmeras as chances de gol. Um contra-ataque perto do fim do jogo e eles fizeram o segundo gol. Dias depois ainda revendo os lances do jogo na memória, da primeira final que eu via meu time participar, triste e ainda não convencido da derrota, fechei os olhos e entrei em campo naquela partida. Faltava pouco para acabar o jogo, meu time havia perdido a bola no meio de campo, corri em direção ao homem de meio-campo do time adversário, roubei-lhe a bola sem falta, driblei um e toquei de lado para um companheiro e corri em diagonal, recebi a bola na frente, corri com a bola colada em meus pés, driblei o primeiro, o segundo, e já dentro da grande área, toquei rasteirinho na saída do goleiro. Golaço! Empatamos o jogo. Faltavam poucos segundos para os quarenta e cinco minutos restantes, quando num chute de fora da área do lateral Jorge Mendonça a bola bateu na trave esquerda e rebateu na minha direção, dominei no peito e dei um chapéu no adversário, sem deixar a bola beijar a grama, toquei nela com o lado de fora do pé direito, deixando o outro defensor no chão, e chutei cruzado fora do alcance das mãos do goleiro, no alto, entre a forquilha. Golaço! O placar agora era 3 x 2 ao nosso favor, e éramos campeões. Depois de tantos anos na fila, eu que acabara de me apaixonar por aquele time, o via campeão. Minha alma era campeã. Minha imaginação havia salvado meu amor iniciante pelo futebol.
Já menino grande, por mais que eu tentasse, por mais que eu me concentrasse, minha imaginação há muito não me socorria na vida real. A infância que acabou prematura, o trabalho que começou cedo, os pais que se desfizeram no primeiro tempo da infância; o time do coração que demorou para ser campeão, a menina mais bonita que sumiu da minha vida, os amigos que ficaram pelo caminho; os irmãos mais novos para cuidar, o poeta que se foi cedo demais, o dinheiro ralo para estudar e sobreviver; o trabalho sem graça, os shows que não foram vividos, a luta diária pelo sonho e a melodia. Minha imaginação me abandonou para ser minha amiga apenas agora, já garoto.
Um garoto que não cresceu muito, que não virou ninguém em especial como imaginado, que nunca foi além em nada que dele se esperasse, mas que não cansa da tentativa de ainda ser salvo e virar algo querido no mundo em que o esperam. Um garoto que procura celebrar os amigos mais queridos sempre que pode, sempre que assim o sente. Que vive cada novo amor com a mesma impossibilidade e imprevisibilidade que a vida sempre foi: um sonho delirante sem o controle das mãos na imaginação.
Eu vivo a vida longe da realidade hoje, para poder amá-la em segurança amanhã.
Jânio Dias
Escrito por Jânio Dias às 21h39
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DIAS ALCINIANOS
The mulberry tree, de Vincent Van Gogh, 1889
“As vezes as coisas são difíceis,
minha amiga,
mas você sabe enfrentar
a beleza dessa vida”
Legião Urbana em, Leila
Cessam-se as chuvas, o sol sorri. Os lares se recompõem, a vida retoma o percurso natural dos dias.
Dias que deveriam ser letras e fonemas de amor e alegria. Canções que diluíssem os efeitos dilacerantes da busca incessante e turbulenta pela felicidade. Uma majestosa e radiante celebração da vida, das pessoas e seus caminhos; do universo e seus mistérios; da amizade e das pequenas coisas simples da vida: sorrir, ouvir, cantar, escrever para alguém. Celebração da dança da alegria e do amor.
Amor perene. Contudo, vicissitudinário. Talvez borboleta. Assim, delicado e cintilante. Forte e sutil. Esparsa e dispersa volúpia dos dias. Dias Alcinianos.
Eu gostaria de ser como um dia Alciniano. Uma fauna de flores e vocábulos. Um grande e discricionário recipiente de tudo quanto alegra e promove o bem. Que torna límpido o que é obscuro, que conforta a falta de fé; que alegra o que é triste, que valoriza o caráter intrínseco da amizade. O Dia Alciniano tem a leveza do vento e a veemência de um furacão.
Um Dia Alciniano é um catalisador de sonhos, risos, virtudes, metáforas e segredos humanos. Uma suave e fina brisa da manhã que nasceu fulgurante. Uma resplandecente e melodiosa maré da tarde que converge esperança. Uma sedutora linguagem mitográfica da noite que acolhe em braços amigos. O Dia Alciniano é um sorriso largo e demorado no tempo.
Gostaria de ser um Dia Alciniano. Mas sou só sonhos e desejos. Sentidos e cantos. Menino de letras e espaços em branco, que vagueia nas linhas da amizade e do coração, para em um pequeno instante de satisfação e conforto, aproximar-se de linguagens e figuras Alcinianas.
E nesse singelo e intenso momento de reverência, percorro o vazio de uma noite comum e encontro um jovem dia, encantado de graça e beleza, de fonemas e canções de amor e alegria.
É que Deus sabe que esse dia, ainda é uma garotinha.
Feliz aniversário, Alcina.
Jânio Dias
Escrito por Jânio Dias às 06h36
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À PROCURA DO PERFEITO PRIMEIRO PARÁGRAFO
(para Alexandre Rodrigues)

Imagem: Igamah Abu Bakar
"O sol ainda não nascera. Era quase impossível distinguir o céu do mar, mas este apresentava algumas rugas, como se de um pedaço de tecido se tratasse. Aos poucos, à medida que o céu clareava, uma linha escura estendeu-se no horizonte, dividindo o céu e o mar. Então, o tecido cinzento coloriu-se de manchas em movimento, umas sucedendo-se às outras, junto à superfície, perseguindo-se mutuamente, sem parar".
Virginia Woolf, em As Ondas (primeiro parágrafo)
Tenho um amigo que procura o perfeito primeiro parágrafo. O começo que estende o veludo do caminho no imaginário. O início que dará sentido e amplitude ao desconhecido que nos aguarda. O princípio que será oposição do que for afirmado nas interrogações. O trecho inicial que será as exclamações das reticências no ponto final. Os primeiros traços de um desenho que comporá um quadro de impressões subjetivas e sensoriais. A janela que permitirá a passagem do vento para a paisagem. Ele vê no primeiro parágrafo a força da invasão.
Ele sabe com antecedência a grandiosidade de um livro ao se deparar com o primeiro parágrafo. Ele vislumbra o meio, o desenrolar, a evolução, o ápice da obra pelo primeiro parágrafo. Ele sente a temperatura da história no primeiro parágrafo. Ele desconfia do narrador, da primeira pessoa, da terceira, do interlocutor, da menina desejada, da vida interrompida no primeiro parágrafo. Ele pressente o fim no primeiro parágrafo.
Ele bebe para discutir sem concluir sobre o primeiro parágrafo. Pede um chope e uma caipirinha ao mesmo tempo. Relembra lugares visitados, conta histórias antigas, cria novas, insere novos personagens; discuti Virginia Woolf e Renato Russo, Julio Cortázar e Chico Buarque, o Santos de Pelé e a seleção de 82. Ele descreve o perfeito primeiro parágrafo como a realidade que visitou o sonho.
Ele lembra de antigos amores como primeiros parágrafos. Letras arrebatadoras que traduziram o sentido da vida em instantes. Espaços distanciados que preencheram a folga da espera. A luz celeste nos corpos embebidos de desejo. A pólvora adocicada que produz ferimentos na retina da memória. Ele recorda um primeiro parágrafo para viver o próximo.
Ele dorme para encontrar o perfeito primeiro parágrafo. Caminha por florestas de árvores centenárias, tropeça em galhos secos, conversa com passarinhos, pisa em poças barrentas que se transformam em mar de céu fechado, enfrenta a tormenta, afoga-se, emerge, afronta o tempo, é carregado de volta a terra pelo mar e o vento. O perfeito primeiro parágrafo deve estar escondido nas entranhas da natureza.
Ele sai para trabalhar pensando no primeiro parágrafo. Beija a esposa e a filha como parágrafos distintos que sugerem complemento à perfeição: a primeira é o parágrafo inicial, a segunda o parágrafo que faltava.
Ele vai para o almoço refletindo sobre o primeiro parágrafo. Sua fome é como o sabor do prato que se ouviu falar e ainda não se conhece; sua vontade é comer o primeiro parágrafo que ainda não foi descoberto.
Ele confia no poder da amizade como crer na importância do primeiro parágrafo. Um amigo de verdade é um primeiro parágrafo bem escrito.
Ele tem uma história pessoal para ser contada que não possui o primeiro parágrafo. Seu sonho é travado no primeiro parágrafo. Sua vida é incompleta no primeiro parágrafo.
Jânio Dias
Escrito por Jânio Dias às 21h53
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BUON GIORNO, PRINCIPESSA!

Girl with a boat, de Pablo Picasso
“And all the roads we have to walk are winding
And all the lights that lead us there are blinding”
Oasis em, Wonderwall
21/11/2006 – 20h35
De: Cris Moreno
Para: Jânio Dias
Tenho estado mais ocupada do que o normal, consegui aproveitar apenas o último final de semana prolongado do ano, que mais feriados teve... minhas férias começaram hoje, e estava eu hoje... trabalhando! Fechamento mensal, essas mesmas coisas de sempre!
Abri minha caixa de emails... 156 não lidos!!!! 555 no total! Na maioria emails bonitinhos que ficam aguardando que eu tenha um tempo para repassar para aqueles que tanto gosto... e o tempo passa. Aí vejo que há um seu... tão difícil isso, (estou até agora, esperando uma resposta, sobre um encontro nosso na Paulista, que se não me engano, o convite foi feito desde o seu aniversário...), e resolvo ler... entrar no blog!!!
(...)
Você continua o mesmo, e mesmo distante quero que saiba que continuo te admirando!
Um gde beijo,
Cris
continua...
Escrito por Jânio Dias às 08h36
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continuação.
Dia 16 último foi aniversário da Cris. Quando a conheci era minha “inimiga”. Ela fazia parte de uma equipe que havia substituído as pessoas com as quais eu trabalhava. De todo o pessoal antigo, eu havia sido o escolhido para ficar algum tempo passando o serviço, tirando dúvidas. Ela tinha a incumbência de falar comigo para aprender toda a rotina. E eu havia ficado contra a minha vontade, a pedido de um diretor e em função de uma necessidade maior. Ela vinha falar diretamente comigo e eu tentava passar só o indispensável. Escondia atalhos e só lhe mostrava o que era perguntado. A achava uma pessoa bem legal, mas o clima criado com a demissão das outras pessoas me deixava frio e ressentido. Beirava o mau tratamento. Mas era impossível ser mau com ela por muito tempo. Sentávamos um ao lado do outro e ela não é de ficar quieta. Eu interagia sempre quando o assunto eram filmes e música. Ouvia indiretamente seus telefonemas, reclamações, anseios... Começamos a ficar mais próximos. Até trocávamos e-mail’s onde eu dava opiniões e dizia o que achava dela. Ficamos amigos. Tão próximos que quando a gente chegava pela manhã eu dizia: “Buon giorno, principessa!!!” E ela retribuía com os braços abertos e toda sorridente: “Buon giorno, amore mio!!!”. E nos abraçávamos.
Na sexta feira passada à noite, quando entrei no orkut e vi o aviso com a carinha dela informando seu aniversário, pensei em ligar imediatamente. Quando passei a teclar os números meu coração começou a bater mais rápido. Fazia tanto tempo que não nos falávamos... A sala tava até gelada por causa do ar condicionado, mas mesmo assim, senti que começava a transpirar. O telefone começou a chamar, chamar, chamar, até dar caixa postal. Tentei deixar uma mensagem alegre de feliz aniversário, mas as palavras sumiram. As que apareceram engasgaram-se, tropeçaram uma na outra. Estavam tão ansiosas com a possibilidade de falar com ela que se chocaram. Eu parecia um bêbado falando. E com certeza ela vai achar que eu tava bêbado, porque acabei deixando uma mensagem de feliz aniversário toda tonta, cambaleante e visivelmente embriagada. Embriagada de saudade, acho.
Quando voltei pra casa procurei uns e-mails impressos que guardei da época que trabalhamos juntos. Um deles, trocado com ela, diz algo que acho que enternece nossa história:
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